quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Culpa existencial

            Se “o ser humano está condenado à liberdade” como proclamado pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre (1943), então ele está totalmente livre para criar e estabelecer o seu próprio projeto (ver texto: Auto-imagem ou projeto original). Este, construído através de escolhas que são oriundas da consciência reflexiva. Consciência esta que pode avaliar e criar um critério de valores, uma vez que cada pessoa escolhe o que é mais importante para si mesma. Entretanto, cada escolha realizada não tem qualquer garantia de sucesso, pois não há como saber o resultado. Este é o grande risco existencial – arriscar-se a cada instante; vivenciar a incerteza na busca por uma “certeza”. A angústia nesse momento torna-se eminente e a pessoa pode escolher não querer escolher (o que não deixa de ser uma escolha). Mas qual seria o intuito dessa pessoa adotando tal postura?
A pessoa quando escolhe não querer escolher, estaria abrindo mão da sua liberdade e, ao mesmo tempo, tentando evitar sentir a angústia. Afinal de contas, liberdade é ação – característica de toda escolha – e, também, abertura diante do nada, que é geradora de angústia. Sendo assim, a pessoa busca minimizar o contato com os fatos para evitar a responsabilidade da escolha e, por conseguinte, o sentimento de angústia. E Erthal comenta a respeito: “[...] A forma de reduzir a ansiedade resultante é diminuindo suas opções, ou seja, evitando significativamente sua interação com os acontecimentos. Na luta contra o que pode vir a destruir o seu ser, o indivíduo acaba deixando de ser completamente [...]” (ERTHAL, p.51, 1989). Tenta-se de todo modo fugir de si mesmo, como se a pessoa quisesse se transformar em um objeto. Porém, tal estratégia acaba conduzindo-a para um abissal sentimento de culpa e fracasso. Tem-se a falsa ideia de que a pessoa nasceu pronta e determinada, como se de fato ela fosse um objeto. Dessa forma, ela deixa de perceber o como tem usado sua liberdade – diminuição das opções, proteção do seu ser e fuga. Suas escolhas em vez de potencializar suas possibilidades existenciais, acabam limitando sua liberdade. Também podemos atestar tal tentativa de limitação quando a pessoa atribui ao destino, a Deus ou ao acaso os resultados não alcançados. Dir-se-á então que ela se tornou o próprio algoz da sua existência, ao mesmo tempo em que desconhece sua responsabilidade existencial.
            A culpa existencial decorre do arrependimento, da lamúria, das possibilidades negadas pela própria pessoa. Feijoo versa acerca: “A culpa existencial – A pre-sença mostra no seu discurso a culpa existencial de várias maneiras. Aparece, por exemplo, como lamentação das possibilidades que não foram escolhidas, [...]. A queixa fica em torno daquilo do qual outrora se abriu mão” (FEIJOO, p.121, 2000). Temos exemplos como: “Ah! Poderia ter feito isso...” ou “Se pudesse, eu voltava no tempo...”, são discursos em que a pessoa acaba ficando enraizada num passado, deixando, assim, de perceber o momento presente e muito menos vislumbrar a possibilidade dum futuro. Presa ao passado, não consegue perceber-se no aqui-e-agora, repetindo assim o mesmo comportamento vivido anteriormente.
            A perspectiva existencial visa à liberdade e à responsabilidade da pessoa. Ficar presa ao passado pode ser uma maneira de fugir do presente – negação da liberdade -, que pode ser uma maneira de evitar entrar em contato com a própria liberdade. Lembrando que a ação é uma condição sine qua non da liberdade. Liberdade que está atrelada à responsabilidade, pois apenas a própria pessoa quem pode realizar suas escolhas e mais ninguém. Daí não haver álibis ou destino em cada escolha efetuada. O que existe é apenas: “EU escolho...” e não o “Todo mundo escolhe... ou “o destino fez essa escolha por mim”. Por conta disso, o existencialismo é visto de maneira equivocada como uma postura filosófica negativa, uma vez que a pessoa é a única responsável pela sua existência. Isso remete à ideia de solidão e abandono, que na realidade é uma quimera, pois estamos com outrem e somos reconhecidos a partir da relação com eles. No entanto, cada escolha é pessoal, particular. Assim, nada mais otimista que filosofia existencial, pois ela coloca nas mãos de quem é de direito a responsabilidade pela construção da própria existência.

Referências Bibliográficas:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.
FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. A escuta e a fala em psicoterapia: uma proposta fenomenológico-existencial – São Paulo: Vetor, 2000.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada – Ensaio de ontologia fenomenológica; tradução de Paulo Perdigão. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Temor da morte ou fuga da vida?

         A morte é inexorável para todo ser humano, não há como escaparmos a ela. No entanto, algumas pessoas “sabendo” de tal sina, buscam por sua imortalidade. A constituição de uma família, por intermédio dos filhos; a ideia de vida após a morte e a publicação de livros são alguns exemplos para sentirmos uma continuidade. Ao mesmo tempo em que tais atitudes demonstram uma inabilidade de reconhecermos que, de fato, nossa existência tem um limite.
            A presença da morte pode ser vista como ameaça à existência, daí muitas vezes o ser humano não desejar falar sobre ela. Tem-se apenas a vontade de evitá-la. Entretanto, a morte se faz presente mesmo que não consigamos percebê-la claramente. Quando concluímos uma meta estabelecida, por exemplo, ela de certa maneira deixou de existir, findou, ou mesmo quando voltamos para casa depois de um dia de trabalho, este também foi finalizado, concluído, e nem por isso deixamos de existir.
            Podemos ainda atestar a presença da morte quando uma pessoa próxima a nós parte. Deixamos de ter o contato com essa pessoa e, ao mesmo tempo, reconhecemos que um dia nosso fim chegará, ou seja, se acontece com o outro, poderá ocorrer comigo. A solidão e um fim que se anuncia para a pessoa são o grande temor e tremor.
            Será a morte somente uma extinção biológica? Na qual nossas funções vitais deixam de funcionar: nutrição, regulação, atividade etc. Como se fôssemos um objeto que foi extinto? Sem dúvida que o corpo delimita nosso ser no mundo, nossa presença em relação a outrem. Assim como também recebemos diversos estímulos do meio, o que favorece uma relação particular com o próprio mundo – interno e externo. Entretanto, tal relação pode ser ameaçada quando a pessoa escolhe morrer psicologicamente. Como se fosse uma forma de suicídio psicológico, só que em vida.
            A “morte psicológica” (Erthal) caracteriza que a morte não se trata de um fato exclusivamente biológico. Na realidade, ela denuncia o término de uma vida considerada saudável sem que tenha o fim da existência física, corpórea. A pessoa escolhe não mais existir – criar uma identidade e autonomia – para aguardar a morte como “solução” para sua problemática. O que acaba sendo uma contradição pelo temor da própria morte. Erthal de forma sabia propõe uma definição para tal morte: “Na morte psíquica, o outro passa a ser o guardião: ser esquecido é tornar-se objeto da atitude de um outro[...]. Enfim, a morte psicológica não deixa de ser o caminho para o fim da existência do sujeito, já que abandona todos os seus projetos de vida em prol de uma forma vegetativa de existir”(ERTHAL, p.145,1989). Nega-se então à existência na tentativa de evitar a angústia da própria vida, uma vez que inevitavelmente temos que passar por perdas (mortes) durante a vida.
            É a filosofia existencial que traz uma nova forma de se relacionar com a morte. Condição que faz parte da existência humana, não no sentido de uma espera pela mesma, mas reconhecendo que temos um limite e que precisamos valorizar cada momento da vida. A conscientização da morte faz com que a pessoa reflita em relação à sua qualidade de vida e não na quantidade que supostamente ainda tem. Até por que não existe apenas a morte por velhice. Se assim fosse, teríamos como prever quando morreríamos, o que também não impediria nossa sina. Na realidade a morte para o existencialismo, de maneira geral, é que dá o significado à própria vida. Como o filósofo alemão Nietzsche – considerado existencialista por muitos - dizia próximo dessas palavras, que devemos dizer sim a cada instante da vida.
            A psicologia existencial, ao acompanhar clientes com questões relacionadas à morte, tem uma meta básica: auxiliá-los a refletir suas qualidades de vida. Como o cliente vivencia suas angústias e seus objetos de medo, que na realidade representam uma espécie de morte, uma vez que toda morte representa uma mudança ou transformação e que, talvez, o cliente procure evitar. Conhecer-se a si mesmo, é assumir seu medo de maneira responsável e que possíveis perdas fazem parte da sua existência, o que não quer dizer evitá-las, mas saber que elas existem para serem vivenciadas e superadas. O trabalho junto ao cliente no aqui-e-agora facilita na compreensão do lidar com a morte e, ao mesmo tempo, faz com que ele tenha maior conscientização da maneira como está vivendo. Alcançando tal compreensão, acreditamos que ele possa conviver com a morte como fazendo parte da sua existência. Reintegrando-a vida, a morte deixa de ser uma fuga da própria existência, passando a ser parte de uma vida mais plena.

Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

terça-feira, 11 de setembro de 2012


Consciência e transcendência do ego


            O ser humano é ontologicamente um ser de relação. Relação consigo mesmo ou com mundo no qual ele vive. Esta relação tem como característica a transcendência, uma vez que a existência não está pronta. Ele, ser humano, precisa a cada momento construir-se, e nesta construção somente ele pode fazê-lo.
            A consciência é proposta como um vazio que segue em direção ao seu objeto de maneira intencional, com o intuito de preenchimento. Tal atitude estabelece à relação primordial da consciência com o mundo. Visto que, não há consciência sem um mundo para ser intencionado, assim como também o mundo só pode ser desvelado por uma consciência – princípio da intencionalidade de Husserl. Portanto, a consciência é um ato de captação do objeto que pode acontecer por: percepção, imaginação, emoção, etc. O que configura a consciência como consciência do mundo. Sartre, citado por Erthal comenta a respeito: “O ego não está formalmente nem materialmente na consciência. Está no mundo – é um ser-do-mundo, como o Ego do outro. [...] É a consciência que torna possível a unidade e personalidade do meu eu. [...] A existência da consciência é um absoluto, porque a consciência é consciência de si mesma. [...] O objeto está frente a ela com sua opacidade característica, mas ela, ela é pura e simplesmente consciente de ser consciente desse objeto, tal a lei de sua existência. Mas esta consciência de consciência não é posicional, isto é, que a consciência não é ela mesma sem objeto. Seu objeto está por natureza fora dela. Não se conhece a si mesmo senão como interioridade absoluta – é a consciência irreflexiva. Não tem lugar para um eu nessa consciência” (ERTHAL, p.36, 1989). Temos então a consciência irreflexiva, consciência de primeiro grau, que se esgota na captação do objeto e a consciência reflexiva ou consciência de segundo grau, que é a consciência de ser consciente de algo.
            A consciência irreflexiva é perceptiva, pois a consciência visa um objeto ou uma ação, excluindo-se a si mesmo. Ela e o objeto de que é consciência tornam-se uma unidade, isto é, existe uma identificação com o objeto sem que ela se perca como objeto. Tal identificação não necessita do conteúdo psíquico do eu, uma vez que o psíquico somente pode ser captado por uma ação reflexiva.
            A consciência de segundo grau ou reflexiva é a consciência de ser consciente de algo. O Eu, neste caso, é consciente do seu objeto de consciência. Daí chamá-la de consciência reflexiva, pois ela reúne condições para avaliar, emitir julgamento sobre alguma atuação. Como podemos atestar nas palavras de Sartre: “[...] no ato de reflexão emito juízos sobre a consciência refletida, envergonho-me ou orgulho-me dela, aceito-a ou a recuso, etc. A consciência imediata de perceber não me permite julgar, querer, envergonhar-me. Ela não conhece minha percepção, não a posiciona: tudo que há de intenção na minha consciência atual acha-se voltado para fora, para o mundo” (SARTRE, p.24, 2001)
            É importante esclarecermos que o ato irreflexivo tem supremacia em relação ao reflexivo. Toda consciência primeiramente é consciência irreflexiva – a consciência sempre existirá mesmo que não haja reflexão; a consciência irreflexiva é independente dum ato reflexivo. O Eu apenas aparece relacionado a um objeto de uma intenção irreflexiva, bem como de um ato reflexivo.
            A terapia existencial tem como proposta a ampliação da autoconsciência para aumentar a possibilidade de escolha. Quanto mais o indivíduo tiver consciência de ser consciente da própria existência, ele passa a se responsabilizar mais por suas escolhas; assume a liberdade que decerto ele é; reconhece que a existência é um contínuo movimento de construção e reconstrução; que ela, existência, tem um tempo indeterminado para ser vivenciado e que o indivíduo precisa correr os riscos de vivê-la. À medida que ele se torna mais autoconsciente poderá viver mais integrado consigo mesmo; percebe seus limites sem deixar de buscar um melhor aprimoramento dentro de possibilidades reais. O Eu, assim, deixa de ser um atributo ou objeto e passa a ser um processo, um agente transformador da própria existência. Esse é o princípio da transcendência do ego do qual nos referimos.


Referências bibliográficas:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada – Ensaio de ontologia fenomenológica; tradução de Paulo Perdigão – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.


        

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O sonho na visão existencial

            Os sonhos sempre despertaram grande interesse humano. Por que sonhamos? E qual seria sua função? São perguntas que suscitaram estudos de psicólogos, psicanalistas e também dos psicofisiólogos. Freud, o pai da psicanálise, por exemplo, diz que o sonho é a porta de entrada para o inconsciente. Na área da fisiologia, pesquisas revelaram que todos sonham, porém não são todos que conseguem se recordar dos mesmos; que os adultos sonham em média de 5 a 7 séries oníricas, ou seja, a cada 90 minutos um sonho; pessoas idosas não sonham tanto e pessoas que não conseguem se lembrar de seus sonhos são pessoas mais controladas, defensivas frente às situações consideradas por elas como problemáticas. Sonhar então parece ser primordial para o funcionamento do nosso organismo.
            E qual é a importância do sonho na abordagem existencial? Diferentemente da proposta freudiana que considera o sonho como possibilidade para desvelar forças inconscientes que dominam a pessoa, o existencialismo vê como um correlato do mundo desperto do próprio sonhador, uma vez que o sonho e a vida desperta fazem parte da mesma pessoa. Durante o sono as funções vitais permanecem e o sonho se torna uma espécie de continuidade dessa vida desperta num outro mundo, o mundo imaginário. Erthal comenta: “O estar-no-mundo caracteriza a relação da consciência que sonha, pois trata-se de um mundo imaginário no qual a consciência não pode perceber; não se sai da atitude imageante enquanto se sonha. Todo sonho é imagem; é um produto da consciência” (Erthal, p.127, 1989). O sonho desta feita pode trazer uma mensagem existencial para o próprio sonhador, o como ele está e sua posição no mundo.
            O sonho para o existencialismo é a trajetória para uma integração. Integração no sentido de que ele contém partes da nossa personalidade. Consideramos que existe um paralelo, um princípio isomórfico de identidade – conceito oriundo da matemática -, entre o sonho e o sonhador. Os diversos elementos oníricos podem fornecer uma gama de explicações ao que ocorre no aqui-e-agora em seu mundo desperto, é por intermédio da consciência reflexiva que a pessoa pode alcançar tais explicações. Ao contrário de interpretar para o cliente o significado, mantemos o sonho como revelado pelo sonhador, cabendo a ele perceber o seu significado particular, próprio. Se o sonho traz possibilidades existenciais da pessoa, cabe ao terapeuta incentivar o cliente a refletir numa relação entre o sonhar e a vida desperta.
            Quando favorecemos ao cliente relatar seu sonho, ele tem a possibilidade de encontrar seu significado – enquanto desperto – do que foi vivenciado no sonho. O foco principal é o esclarecimento do real ser-no-mundo do sonhador que não existe durante o sonho. Inicialmente ele relata o sonho para depois descrever a reação diante dos fenômenos que lhe aparecem. Qual o sentimento presente? Qual a mensagem existencial está presente nesse estado anímico? Vejamos um pequeno exemplo fictício do trabalho com o sonho no existencialismo. Nosso intuito com tal apresentação é para melhor esclarecer ao leitor como este trabalho pode ser desenvolvido. Lembrando que, para alcançarmos um melhor resultado, é fundamental a participação do cliente. Vamos ao exemplo: Estava me olhando. Não parecia comigo, mas sabia que era eu mesma. Tinha que escolher entre dois caminhos para seguir. Entretanto, estava com medo. Um medo que me paralisava, não conseguia escolher de forma alguma. Um relógio aparece mostrando o tempo que me resta para escolher, como se fosse meu fim. Acordo assustada.
            Primeiramente podemos perguntar ao cliente como ele se sente agora relatando seu sonho (Talvez haja uma relação do sentimento de medo no sonho com seu mundo desperto. Nesse caso, o medo será trabalho com o cliente). Em seguida incentivamos que ele vivencie seu sonho no presente, em partes: ele mesmo, os dois caminhos, o medo, o relógio e o tempo (A escolha cabe ao cliente para verificar com qual personagem inicialmente mais se identifica). A vivência do cliente em cada aspecto do sonho poderá revelar seu ser-no-mundo desperto, como se ele estivesse representando um papel, um personagem do próprio sonho para tirar daí sua mensagem existencial. Pela percepção e compreensão do sonho no aqui-e-agora é que o cliente poderá alcançar sua integração. Esse se configura o princípio isomórfico de identidade com o qual realizamos nosso trabalho.

Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

terça-feira, 3 de julho de 2012

O risco

         O ser humano muitas vezes busca ter garantias na vida - garantia de uma escolha correta; garantia de que será feliz ou mesmo ter a garantia de que não vai sofrer. São tentativas diante da ameaça da própria existência, uma vez que realizando escolhas, ele entra em contato com risco, com a incerteza do seu resultado. Incerteza esta que é geradora de angústia.
            A maneira com ele procura evitar sua angústia é diminuindo suas possibilidades de escolha, ou seja, deixando de interagir com os acontecimentos. Como se quisesse negar sua liberdade para se transformar num objeto. Possibilidade que acaba levando ao sentimento de culpa, que na realidade é o fracasso do próprio projeto – escolhe o não-ser na ilusão de evitar o sofrimento. Contudo, tal escolha faz com que ele perca o contato consigo mesmo. Não conseguindo perceber a si mesmo, não há como reconhecer suas reais possibilidades existenciais, que de uma certa maneira acaba gerando sofrimento.
            Se a liberdade parte da própria consciência, então, a autoconsciência se faz necessária para que a pessoa possa reconhecer seu ser-no-mundo, que a angústia não é uma doença ou fenômeno anormal, mas algo ontológico ao ser humano, ou seja, um modo de ser diante do nada. Nada que é expresso pela incerteza do resultado, do embate com o não-ser, medo de perder os outros e também medo de se perder no outro. Portanto, o reconhecimento da angústia como fazendo parte do seu ser faz com que ele aumente sua liberdade de escolha e, por conseguinte, aceite correr o risco de ser.
            A filosofia existencial tem como premissa que a vida é o risco. Correr o risco a todo o momento realizando escolhas ou tentando evitá-las. Estar cônscio que apenas ele é quem pode realizar seu projeto é o grande risco, uma vez que o reconhecimento da liberdade assusta. Como Erthal cita: “A liberdade é uma conquista do homem, mas que ao mesmo tempo o assusta. É livre para se criar e está livre para executar seu projeto. Desocultando-se, permite-se realizar a sua autocriação. Esse é o principal risco” (ERTHAL, p.50, 1999). O grande temor e tremor do ser humano é o reconhecimento dessa liberdade, que ele está sozinho e que mais ninguém pode arriscar por ele.
            A psicologia existencial que se utiliza da filosofia existencial como orientação na sua atuação, propõe uma ampliação da autoconsciência no sentido de aumentar o potencial de escolha; auxilia ao cliente no aspecto de descobrir-se e de autogerir-se; é ajudá-lo a aceitar os riscos de suas próprias escolhas responsáveis e aceitar a liberdade para realizar sua (re) construção para existir.  
            Para alcançar tal ampliação, se faz necessário passar por algumas etapas que procuraremos explicar como intuito de compreensão.
            Num primeiro momento, existe uma desorganização do conteúdo expresso pelo cliente. O problema é descrito, comumente existe uma atitude bastante crítica com relação à auto-imagem, não há nesse momento conscientização que ele faz parte do problema. Limita-se a descrever os problemas sem entrar em contato diretamente com eles. Uma atitude racional domina o sentimento bloqueando-o de encontrar sua verdade.
            Em seguida, existe uma maior exploração do problema. Este agora faz parte do cliente. Há um questionamento dos valores atuais e uma nova maneira emerge com o modo atual de existir. As contradições são reconhecidas e fazem com que o cliente busque uma forma mais consciente do eu para perceber melhor o seu comportamento.
            Uma organização começa a surgir do momento que o cliente modifica o foco para si mesmo. O que antes era desorganizado passa a ter uma organização do ponto de vista de significação pessoal. Claro que não é acabando com os problemas que o cliente atinge o crescimento, mas sabendo que eles existem e que tem capacidade resolvê-los à medida que vão aparecendo. Ele reconhece suas limitações, sem deixar de buscar um melhor aprimoramento. Razão e sentimento passam a ser integrados. O cliente agora consegue aceitar a si mesmo.
            Acreditamos assim que uma maior tomada de consciência por parte do cliente, faça com que ele reconheça suas próprias capacidades existenciais. Capacidades que são reconhecidas a partir de um contato maior consigo mesmo, que a angústia faz parte do seu ser e que precisa correr os riscos pelas escolhas efetuadas. À medida que ele adquire maior consciência do que está fazendo e como está fazendo, poderá ser mais responsável por sua experiência; o foco deixa de ser o externo, passando a dar maior valor a experiência pessoal como referência de suas decisões. Confiando mais em si mesmo, poderá arriscar-se. O eu agora é visto como processo e não mais como um objeto.

Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

terça-feira, 29 de maio de 2012


Método Fenomenológico

         Método desenvolvido por Edmund Husserl (1859-1938) foi criado na tentativa de superar a cisão entre as duas principais correntes da filosofia contemporânea – o racionalismo e o empirismo. O primeiro pode ser sintetizado na máxima racionalista do francês René Descartes: Cogito ergo sum ou “Penso, logo existo”. Sua visão racional do mundo coloca como única certeza o pensar e que não posso duvidar dessa atitude. O segundo expresso na proposta do empirista escocês David Hume. Ele enfatizava que só podemos adquirir o conhecimento a partir da experiência imediata através dos sentidos, ou seja, quando experimentamos algo ou situação pelos nossos sentidos é que de fato podemos conhecer.

            Husserl tentou solucionar tal impasse propondo que devemos “voltar às coisas mesmas”. Mas o que são “as coisas” para ele? São os fenômenos como aparecem à consciência; a experiência imediata que precede o pensamento ou a vivência que temos dos fenômenos. São eles que devem ser investigados pelos filósofos. Daí o nome dado por ele para essa atividade de fenomenologia.

            Desta feita, Husserl pretende resolver o dualismo entre essência e aparência quando propõe suas duas máximas: “Toda consciência é consciência de algo” e “O objeto é sempre objeto para a consciência”, expressam o princípio da intencionalidade do pensador. Consciência e objeto estão ligados diretamente nesse processo, uma vez que não existe consciência sem objeto para desvelá-lo, assim como o objeto não existe sem uma consciência para apreendê-lo. Portanto, a oposição idealismo e realismo parece solucionado, assim como relação entre ser e consciência superada. Como Erthal diz: “A consciência não é um lugar, tal como uma caixa que abriga conteúdos mentais, conforme a concepção wundtiana, mas uma espécie de movimento para fugir de si mesma, um escape para fora de si, para poder ter uma existência [...]” (ERTHAL, p.29, 1989). A consciência nesse aspecto perde a concepção de mero receptáculo onde armazenaria informações, passando a alcançar os objetos que para ela (consciência) aparecem como fenômenos.

 A descrição dos fenômenos como aparecem à consciência - método fenomenológico – revelam que cada fenômeno apresenta um núcleo significativo denominado de eidos ou essência. E para alcançarmos à essência básica se faz necessário diversas reduções do fenômeno, que Husserl denominou de epoché ou redução fenomenológica. Todos os condicionamentos aprendidos: histórico-sócio-cultural são colocados “entre parênteses”, a ênfase recai única e exclusivamente na vivência do sujeito, na maneira como ele se relaciona com o fenômeno. Só assim, chegaremos à essência do fenômeno.

E como o método fenomenológico é aplicado na terapia existencial? É usado para captar a pessoa como de fato ela é, sem idealizações. Este método procura compreender o indivíduo como um ser-no-mundo, único e particular. O método fenomenológico não se trata de um método ortodoxo de terapia, mas sim, uma maneira de compreender a realidade expressa pelo cliente, suas intenções no mundo. Para que isso efetivamente aconteça, é necessário que terapeuta e cliente estejam juntos, que possam estabelecer um encontro verdadeiro, uma vez que cada encontro-relação é único.

O cliente traz o fenômeno – problema. O terapeuta deve suspender seus valores e sentimentos pessoais para captar aqueles expressos pelo cliente, como se deixasse seu “eu” suspenso na relação para servir como um espelho que reflete às intenções do seu cliente. Como ele se sente e o que ele demonstra ao relatar sua questão. Todo e qualquer juízo externo à vivência é suprimido. Diversas reduções fenomenológicas são realizadas para alcançar esse intuito: redução teológica, redução psicológica, etc. A empatia, nesse caso, é que possibilita o verdadeiro encontro na qual o terapeuta se coloca no lugar do seu cliente para perceber seu mundo fenomênico. Já o cliente tem a possibilidade de se compreender por intermédio do terapeuta. A compreensão empática então é o pilar do método fenomenológico. 





Referências Bibliográficas:



ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia Vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.



ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Treinamento em psicoterapia vivencial; Campinas, SP: Livro Pleno, 2004.




sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sugestões de leitura

MACIEL, Luiz Carlos. Sartre – Vida e Obra; São Paulo; Paz e Terra Ed., 1986.
Livro que faz parte da coleção “Vida e Obra” e que o autor proporciona ao leitor um contato abrangente à obra de Jean-Paul Sartre.

SARTRE, Jean-Paul. A Náusea; tradução de Rita Braga; Rio de Janeiro; Nova Fronteira Ed., 2000.
Romance que versa sobre a contingência do mundo. Antoine Roquetin, o protagonista, experimenta que está no mundo de maneira gratuita, por nada e sem justificativa. O contato com essa gratuidade provoca nele a náusea.

SARTRE, Jean-Paul. O imaginário; tradução de Duda Machado; São Paulo; Ática Ed., 1996.
Obra que propõe uma investigação acerca das imagens. Estas não seriam tratadas pelo filósofo como coisas, mas sim, como uma forma de consciência. Para elucidar tal investigação, utiliza a fenomenologia de Edmund Husserl e sua noção da intencionalidade.

SARTRE, Jean-Paul. Furacão sobre Cuba; Rio de Janeiro; Editora do Autor, 1986.
Trata-se do testemunho de Sartre acerca da revolução cubana. Uma coletânea de artigos escritos em especial para “France-Soir” e que foram reunidos em livro.

SARTRE, Jean- Paul. Saint Genet: ator e mártir; tradução de Lucy Magalhães; Petrópolis, RJ: Vozes Ed., 2002.
Estudo do filósofo sobre Jean Genet. Um homem desclassificado, sem perspectiva para seguir sua vida e que acaba escolhendo como saída à literatura. O projeto humano caracterizado pelo que Sartre denominou de psicanálise existencial.


SARTRE, Jean-Paul. O Diabo e o bom Deus; tradução de Maria Jacintha; São Paulo; Círculo do livro Ed., 1974.
Peça teatral que apresenta a aventura do personagem, Goetz, na sua tentativa infrutífera de realizar a ideia do mal absoluto, assim como também do bem absoluto, uma vez que ambos os projetos estão desvinculados da realidade concreta.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo; tradução de Vergílio Ferreira; São Paulo; Abril Cultural Ed., 1973.
Conferência que o filósofo explica o existencialismo como uma moral da ação. A vida humana não é uma essência pré-determinada, mas algo para ser vivido, construído. Portanto, somente depois de existir que o ser humano constrói sua essência.

SARTRE, Jean-Paul. A Idade da razão: os caminhos da liberdade 1; tradução de Sérgio Milliet; Rio de Janeiro; Nova Fronteira Ed., 1983.
Romance que faz parte da trilogia, Os caminhos da liberdade. Trata-se da questão da liberdade e da tentativa de negá-la. O personagem, Mathieu Delarue, é tomado pela angústia e sofrimento de tal tentativa.


SARTRE, Jean-Paul. Sursis: os caminhos da liberdade 2; tradução de Sérgio Milliet; São Paulo; Abril Cultural Ed., 1974.
Segundo volume de Os caminhos da liberdade. O filósofo procura mostrar a interdependência de todas as ações humanas, que todos os atos concretos acabam influenciando na liberdade de outrem.

SARTRE, Jean-Paul. Com a morte na alma: os caminhos da liberdade 3; tradução de Sérgio Milliet; Rio de Janeiro; Nova fronteira Ed., 1983.
Último volume de Os caminhos da liberdade. A liberdade só tem algum significado quando em ato, ou seja, pela capacidade do próprio ser humano em modificar alguma realidade.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada – Ensaio de ontologia fenomenológica; tradução de Paulo Perdigão; Petrópolis, RJ: Vozes Ed., 1997.
Obra mais famosa do filósofo. São extensas análises filosóficas que propõem uma teoria finalizada do ser, da qual o próprio Sartre denominou de psicanálise existencial - a liberdade como condenação humana.

STRATHERN, Paul. Sartre em 90 minutos; tradução de Marcus Penchel; Rio de Janeiro; Jorge Zahar Ed., 1999.
Coleção Filósofos em 90 minutos. O autor versa sobre a vida do pensador francês e suas principais ideias.







Boa leitura...