terça-feira, 9 de abril de 2013


Mudar ou não mudar, eis a questão

            Gostaria de falar acerca de um tema que para algumas pessoas pode ser considerado como um grande obstáculo na vida: a mudança. Quem já não sentiu aquele friozinho na barriga só em pensar na possibilidade de ter que fazer uma mudança na própria vida. Não me refiro aqui exclusivamente à mudança de emprego ou de um relacionamento amoroso, mas, principalmente, a proposta de mudança psicológica, do próprio EU. Mudança esta desejada por muitos e ao mesmo tempo temida também, uma vez que ela requer responsabilidade e engajamento por parte da pessoa. Cabe a ela, a responsabilidade por tal escolha, assim como também sua ação para alcançar seu desejado projeto. A questão, é que a busca pela mudança pessoal não se faz sem angústia, pois a pessoa terá que abandonar-se para recriar-se a si mesma. E talvez aí haja a possibilidade de um impedimento: abrir mão de um comportamento já conhecido, habitual, para (re) construir-se numa nova pessoa. Como se a mesma fosse uma espécie de fênix renascida das próprias cinzas.
            A mudança traz o desafio do novo, do desconhecido, o que muitas vezes pode fazer com que a pessoa se paralise. O medo da perda do próprio EU torna-se uma ameaça. Tem-se uma ideia equivocada no transcurso da mudança que o EU se perderá. Na realidade o EU não se perde, mas ocorre uma ondulação durante esse processo – fator que faz parte da mudança. Em alguns aspectos a pessoa pode se desenvolver melhor do que em outros, o que não impede pela busca de um melhor aprimoramento pessoal. A suposta perda do EU não ocorre, senão seu próprio desenvolvimento.
            Se por um lado inexiste o medo da perda EU, por outro temos o medo do risco. Risco que nos coloca diante de uma abertura e que muitas vezes não queremos vivenciá-lo. É mais fácil ter uma atitude acomodada ou mesmo acreditar que já nascemos com uma essência pré-determinada, pois, assim, não há o que mudar e muito menos conviver com uma possível derrocada emocional. Torna-se então mais fácil a acomodação, permanecer onde está para talvez evitar um possível sofrimento no porvir. Contudo, acabamos criando dessa maneira um paradoxo: controlar o incontrolável. A tentativa de controle já coloca em xeque a própria existência, uma vez que exige um esforço tremendo da própria pessoa para evitar qualquer contato com o risco, ao mesmo tempo em que ela abdica de experimentar-se a si mesma e constatar pela própria vivência suas reais possibilidades. Em suma, tal tentativa não a livra de um possível sofrimento indesejado, mas, ao contrário, faz emergir noutro sofrimento, qual seja, a culpa. Culpa pelo medo de não arriscar.   
            Então, realizo uma mudança pessoal ou não, eis a questão? Qual seria o receio? Olhar para as possíveis perdas pode ser uma forma de tirar o foco dos possíveis ganhos. O ser humano não nasce pronto ou com uma essência pré-determinada. Somos seres humanos não porque nascemos humanos, mas porque reunimos condições de transformação. Não apenas transformação onde vivemos, mas, inclusive, como vivemos, quem somos. Somente pela atitude que o ser humano pode conseguir um maior e melhor autoconhecimento sobre si mesmo. Autoconhecimento que só podemos adquirir com o risco da mudança, com a vivência de novas situações. Sendo assim, se você está com medo ou dúvida se vale à pena criar uma mudança pessoal ou não, pense no motivo que lhe impede. Talvez você possa se surpreender com a coleção de ideias ao próprio respeito e não por vivências concretas realizadas. São essas vivencias que podem lhe dar um melhor parâmetro ao próprio respeito, ou seja, até onde posso ir; se consigo mesmo ou não. Lembrando também que tal parâmetro não define a pessoa, pois somente a própria pessoa quem define seus fins, suas metas.
Para finalizar, gostaria de citar aqui o poeta Guimarães Rosa que dizia: “viver é perigoso”. Entretanto, pelo meu modo de ver, mais perigoso ainda é deixar de viver; deixar de arriscar; abrir mão de si mesmo; abrir mão da própria mudança, uma vez que evoluir tem relação direta com mudanças que criamos na própria vida e não pela manutenção de idealizações que acreditamos ter ao nosso próprio respeito. Boas mudanças! Um grande abraço...









sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O momento da alta

         O findar da terapia geralmente representa uma conclusão de metas estabelecidas. O cliente ao longo do processo terapêutico construiu mudanças significativas, aprendeu a lidar melhor com situações antes temidas e, por conta disso, um sentimento de bem-estar inunda seu ser. Torna-se assim natural e ao mesmo tempo temido também o desejo por experimentar suas novas habilidades fora do “setting” terapêutico.
 Quem define o momento da alta? E sob qual critério? Isso nos remete aos modelos de terapia. Temos o modelo médico no qual o profissional define o melhor momento para conceder à alta e o modelo psicológico que acredita na capacidade do próprio cliente para definir quando interromper sua terapia. Na primeira situação, o cliente poderá se sentir abandonado ou rejeitado pelo terapeuta. Por outro lado, um sentimento de alívio pode acometê-lo, uma vez que a responsabilidade pela interrupção parte do profissional. Já no segundo caso, é o cliente quem define o momento da interrupção - a responsabilidade agora está nas mãos do cliente. Ele decide quando interromper seu tratamento. Decisão que, no entanto, não o livra da dúvida ou da incerteza, senão para o risco, pois, estará sozinho enfrentando seus problemas.
A terapia vivencial – psicologia existencial baseada na filosofia de Jean-Paul Sartre – estabelece o cliente como à pessoa mais qualificada para decidir o momento da alta. Erthal versa a respeito: “Na terapia vivencial, a alta é dada pelo próprio cliente que é considerado a pessoa mais adequada para se avaliar, atingindo o crescimento” (ERTHAL, p.147, 2004). Se nessa abordagem existencial enfatizamos a autonomia e a responsabilidade do cliente, estaríamos nos contradizendo se determinássemos o momento da interrupção do tratamento. Cabe assim ao cliente escolher o momento para interrompê-la.
Mas o cliente não pode equivocar-se levantando prematuramente o término do tratamento? Claro que pode! Daí a importância duma discussão franca com o terapeuta para auxiliá-lo na sua decisão. Visto que, existe uma diferença entre o cliente que levanta o assunto da alta para o cliente que já definiu o momento de parar. A questão é que alguns términos tornam-se prematuros. Comumente, clientes alegam não ter mais nada para falar ou não percebem a ligação do trabalho realizado com os problemas vivenciados. Alguns indícios servem para sinalizar um desejo para interromper o tratamento: atrasos e faltas constantes, baixa produção, etc. Entretanto, tais comportamentos podem representar uma forma do cliente chamar a atenção do terapeuta. O cliente pode sentir-se pouco apoiado, triste com suas descobertas, ou mesmo tentando evitar entrar em contato com a sua ansiedade. Até mesmo a situação financeira pode ser usada como desculpa para evitar falar sobre seu descontentamento com a terapia.
Como mencionamos anteriormente, é de suma importância uma discussão no sentido de esclarecimento para o cliente acerca da sua decisão, pois, talvez, haja alguns aspectos nebulosos que necessitem de uma melhor compreensão. Alcançar tal compreensão pode dissipar dúvidas e fortalecer sua decisão. No entanto, alguns clientes, por exemplo, ficam na dúvida em interromper seu tratamento pelo medo de perder o contato com o terapeuta. Relutam interromper a terapia, pois, desta maneira, ainda conseguem manter o vínculo. Outros levantam a questão da alta precipitadamente por repetição de comportamentos anteriores – abandonaram atividades anteriores por medo do fracasso, ou por causa da ideia de que não conseguirão alcançar seus objetivos. E também clientes que podem passar por dificuldades financeiras – questão comum nos dias de hoje – a ponto de ameaçar a continuidade do tratamento. Em todos os exemplos citados, é importante que o terapeuta, com sensibilidade, possa junto com o cliente chegar numa melhor compreensão para ajudá-lo na sua decisão. Deixar o cliente bem à vontade no sentido dele desejar manter contato com o terapeuta mesmo após a alta e que ficaria feliz por acompanhar seu desenvolvimento (Lembrando que caso ele precise retornar à terapia não se trata de retrocesso, mas um recomeço); levar o cliente à percepção do comportamento sabotador, e que a interrupção da terapia seria mais uma fuga de si mesmo, e que a questão financeira pode ser revista junto com o cliente – posição particular de cada terapeuta – para não atrapalhar no seu desenvolvimento. Em todo caso, sempre o cliente escolhe o momento da alta. Cabe ao terapeuta, respeitar e acolher sua decisão. Atitudes estas que reafirmam à máxima do existencialismo sartreano, qual seja, a LIBERDADE.       


Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Treinamento em Psicoterapia Vivencial; Livro Pleno, São Paulo, 2004.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Culpa existencial

            Se “o ser humano está condenado à liberdade” como proclamado pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre (1943), então ele está totalmente livre para criar e estabelecer o seu próprio projeto (ver texto: Auto-imagem ou projeto original). Este, construído através de escolhas que são oriundas da consciência reflexiva. Consciência esta que pode avaliar e criar um critério de valores, uma vez que cada pessoa escolhe o que é mais importante para si mesma. Entretanto, cada escolha realizada não tem qualquer garantia de sucesso, pois não há como saber o resultado. Este é o grande risco existencial – arriscar-se a cada instante; vivenciar a incerteza na busca por uma “certeza”. A angústia nesse momento torna-se eminente e a pessoa pode escolher não querer escolher (o que não deixa de ser uma escolha). Mas qual seria o intuito dessa pessoa adotando tal postura?
A pessoa quando escolhe não querer escolher, estaria abrindo mão da sua liberdade e, ao mesmo tempo, tentando evitar sentir a angústia. Afinal de contas, liberdade é ação – característica de toda escolha – e, também, abertura diante do nada, que é geradora de angústia. Sendo assim, a pessoa busca minimizar o contato com os fatos para evitar a responsabilidade da escolha e, por conseguinte, o sentimento de angústia. E Erthal comenta a respeito: “[...] A forma de reduzir a ansiedade resultante é diminuindo suas opções, ou seja, evitando significativamente sua interação com os acontecimentos. Na luta contra o que pode vir a destruir o seu ser, o indivíduo acaba deixando de ser completamente [...]” (ERTHAL, p.51, 1989). Tenta-se de todo modo fugir de si mesmo, como se a pessoa quisesse se transformar em um objeto. Porém, tal estratégia acaba conduzindo-a para um abissal sentimento de culpa e fracasso. Tem-se a falsa ideia de que a pessoa nasceu pronta e determinada, como se de fato ela fosse um objeto. Dessa forma, ela deixa de perceber o como tem usado sua liberdade – diminuição das opções, proteção do seu ser e fuga. Suas escolhas em vez de potencializar suas possibilidades existenciais, acabam limitando sua liberdade. Também podemos atestar tal tentativa de limitação quando a pessoa atribui ao destino, a Deus ou ao acaso os resultados não alcançados. Dir-se-á então que ela se tornou o próprio algoz da sua existência, ao mesmo tempo em que desconhece sua responsabilidade existencial.
            A culpa existencial decorre do arrependimento, da lamúria, das possibilidades negadas pela própria pessoa. Feijoo versa acerca: “A culpa existencial – A pre-sença mostra no seu discurso a culpa existencial de várias maneiras. Aparece, por exemplo, como lamentação das possibilidades que não foram escolhidas, [...]. A queixa fica em torno daquilo do qual outrora se abriu mão” (FEIJOO, p.121, 2000). Temos exemplos como: “Ah! Poderia ter feito isso...” ou “Se pudesse, eu voltava no tempo...”, são discursos em que a pessoa acaba ficando enraizada num passado, deixando, assim, de perceber o momento presente e muito menos vislumbrar a possibilidade dum futuro. Presa ao passado, não consegue perceber-se no aqui-e-agora, repetindo assim o mesmo comportamento vivido anteriormente.
            A perspectiva existencial visa à liberdade e à responsabilidade da pessoa. Ficar presa ao passado pode ser uma maneira de fugir do presente – negação da liberdade -, que pode ser uma maneira de evitar entrar em contato com a própria liberdade. Lembrando que a ação é uma condição sine qua non da liberdade. Liberdade que está atrelada à responsabilidade, pois apenas a própria pessoa quem pode realizar suas escolhas e mais ninguém. Daí não haver álibis ou destino em cada escolha efetuada. O que existe é apenas: “EU escolho...” e não o “Todo mundo escolhe... ou “o destino fez essa escolha por mim”. Por conta disso, o existencialismo é visto de maneira equivocada como uma postura filosófica negativa, uma vez que a pessoa é a única responsável pela sua existência. Isso remete à ideia de solidão e abandono, que na realidade é uma quimera, pois estamos com outrem e somos reconhecidos a partir da relação com eles. No entanto, cada escolha é pessoal, particular. Assim, nada mais otimista que filosofia existencial, pois ela coloca nas mãos de quem é de direito a responsabilidade pela construção da própria existência.

Referências Bibliográficas:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.
FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. A escuta e a fala em psicoterapia: uma proposta fenomenológico-existencial – São Paulo: Vetor, 2000.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada – Ensaio de ontologia fenomenológica; tradução de Paulo Perdigão. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Temor da morte ou fuga da vida?

         A morte é inexorável para todo ser humano, não há como escaparmos a ela. No entanto, algumas pessoas “sabendo” de tal sina, buscam por sua imortalidade. A constituição de uma família, por intermédio dos filhos; a ideia de vida após a morte e a publicação de livros são alguns exemplos para sentirmos uma continuidade. Ao mesmo tempo em que tais atitudes demonstram uma inabilidade de reconhecermos que, de fato, nossa existência tem um limite.
            A presença da morte pode ser vista como ameaça à existência, daí muitas vezes o ser humano não desejar falar sobre ela. Tem-se apenas a vontade de evitá-la. Entretanto, a morte se faz presente mesmo que não consigamos percebê-la claramente. Quando concluímos uma meta estabelecida, por exemplo, ela de certa maneira deixou de existir, findou, ou mesmo quando voltamos para casa depois de um dia de trabalho, este também foi finalizado, concluído, e nem por isso deixamos de existir.
            Podemos ainda atestar a presença da morte quando uma pessoa próxima a nós parte. Deixamos de ter o contato com essa pessoa e, ao mesmo tempo, reconhecemos que um dia nosso fim chegará, ou seja, se acontece com o outro, poderá ocorrer comigo. A solidão e um fim que se anuncia para a pessoa são o grande temor e tremor.
            Será a morte somente uma extinção biológica? Na qual nossas funções vitais deixam de funcionar: nutrição, regulação, atividade etc. Como se fôssemos um objeto que foi extinto? Sem dúvida que o corpo delimita nosso ser no mundo, nossa presença em relação a outrem. Assim como também recebemos diversos estímulos do meio, o que favorece uma relação particular com o próprio mundo – interno e externo. Entretanto, tal relação pode ser ameaçada quando a pessoa escolhe morrer psicologicamente. Como se fosse uma forma de suicídio psicológico, só que em vida.
            A “morte psicológica” (Erthal) caracteriza que a morte não se trata de um fato exclusivamente biológico. Na realidade, ela denuncia o término de uma vida considerada saudável sem que tenha o fim da existência física, corpórea. A pessoa escolhe não mais existir – criar uma identidade e autonomia – para aguardar a morte como “solução” para sua problemática. O que acaba sendo uma contradição pelo temor da própria morte. Erthal de forma sabia propõe uma definição para tal morte: “Na morte psíquica, o outro passa a ser o guardião: ser esquecido é tornar-se objeto da atitude de um outro[...]. Enfim, a morte psicológica não deixa de ser o caminho para o fim da existência do sujeito, já que abandona todos os seus projetos de vida em prol de uma forma vegetativa de existir”(ERTHAL, p.145,1989). Nega-se então à existência na tentativa de evitar a angústia da própria vida, uma vez que inevitavelmente temos que passar por perdas (mortes) durante a vida.
            É a filosofia existencial que traz uma nova forma de se relacionar com a morte. Condição que faz parte da existência humana, não no sentido de uma espera pela mesma, mas reconhecendo que temos um limite e que precisamos valorizar cada momento da vida. A conscientização da morte faz com que a pessoa reflita em relação à sua qualidade de vida e não na quantidade que supostamente ainda tem. Até por que não existe apenas a morte por velhice. Se assim fosse, teríamos como prever quando morreríamos, o que também não impediria nossa sina. Na realidade a morte para o existencialismo, de maneira geral, é que dá o significado à própria vida. Como o filósofo alemão Nietzsche – considerado existencialista por muitos - dizia próximo dessas palavras, que devemos dizer sim a cada instante da vida.
            A psicologia existencial, ao acompanhar clientes com questões relacionadas à morte, tem uma meta básica: auxiliá-los a refletir suas qualidades de vida. Como o cliente vivencia suas angústias e seus objetos de medo, que na realidade representam uma espécie de morte, uma vez que toda morte representa uma mudança ou transformação e que, talvez, o cliente procure evitar. Conhecer-se a si mesmo, é assumir seu medo de maneira responsável e que possíveis perdas fazem parte da sua existência, o que não quer dizer evitá-las, mas saber que elas existem para serem vivenciadas e superadas. O trabalho junto ao cliente no aqui-e-agora facilita na compreensão do lidar com a morte e, ao mesmo tempo, faz com que ele tenha maior conscientização da maneira como está vivendo. Alcançando tal compreensão, acreditamos que ele possa conviver com a morte como fazendo parte da sua existência. Reintegrando-a vida, a morte deixa de ser uma fuga da própria existência, passando a ser parte de uma vida mais plena.

Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

terça-feira, 11 de setembro de 2012


Consciência e transcendência do ego


            O ser humano é ontologicamente um ser de relação. Relação consigo mesmo ou com mundo no qual ele vive. Esta relação tem como característica a transcendência, uma vez que a existência não está pronta. Ele, ser humano, precisa a cada momento construir-se, e nesta construção somente ele pode fazê-lo.
            A consciência é proposta como um vazio que segue em direção ao seu objeto de maneira intencional, com o intuito de preenchimento. Tal atitude estabelece à relação primordial da consciência com o mundo. Visto que, não há consciência sem um mundo para ser intencionado, assim como também o mundo só pode ser desvelado por uma consciência – princípio da intencionalidade de Husserl. Portanto, a consciência é um ato de captação do objeto que pode acontecer por: percepção, imaginação, emoção, etc. O que configura a consciência como consciência do mundo. Sartre, citado por Erthal comenta a respeito: “O ego não está formalmente nem materialmente na consciência. Está no mundo – é um ser-do-mundo, como o Ego do outro. [...] É a consciência que torna possível a unidade e personalidade do meu eu. [...] A existência da consciência é um absoluto, porque a consciência é consciência de si mesma. [...] O objeto está frente a ela com sua opacidade característica, mas ela, ela é pura e simplesmente consciente de ser consciente desse objeto, tal a lei de sua existência. Mas esta consciência de consciência não é posicional, isto é, que a consciência não é ela mesma sem objeto. Seu objeto está por natureza fora dela. Não se conhece a si mesmo senão como interioridade absoluta – é a consciência irreflexiva. Não tem lugar para um eu nessa consciência” (ERTHAL, p.36, 1989). Temos então a consciência irreflexiva, consciência de primeiro grau, que se esgota na captação do objeto e a consciência reflexiva ou consciência de segundo grau, que é a consciência de ser consciente de algo.
            A consciência irreflexiva é perceptiva, pois a consciência visa um objeto ou uma ação, excluindo-se a si mesmo. Ela e o objeto de que é consciência tornam-se uma unidade, isto é, existe uma identificação com o objeto sem que ela se perca como objeto. Tal identificação não necessita do conteúdo psíquico do eu, uma vez que o psíquico somente pode ser captado por uma ação reflexiva.
            A consciência de segundo grau ou reflexiva é a consciência de ser consciente de algo. O Eu, neste caso, é consciente do seu objeto de consciência. Daí chamá-la de consciência reflexiva, pois ela reúne condições para avaliar, emitir julgamento sobre alguma atuação. Como podemos atestar nas palavras de Sartre: “[...] no ato de reflexão emito juízos sobre a consciência refletida, envergonho-me ou orgulho-me dela, aceito-a ou a recuso, etc. A consciência imediata de perceber não me permite julgar, querer, envergonhar-me. Ela não conhece minha percepção, não a posiciona: tudo que há de intenção na minha consciência atual acha-se voltado para fora, para o mundo” (SARTRE, p.24, 2001)
            É importante esclarecermos que o ato irreflexivo tem supremacia em relação ao reflexivo. Toda consciência primeiramente é consciência irreflexiva – a consciência sempre existirá mesmo que não haja reflexão; a consciência irreflexiva é independente dum ato reflexivo. O Eu apenas aparece relacionado a um objeto de uma intenção irreflexiva, bem como de um ato reflexivo.
            A terapia existencial tem como proposta a ampliação da autoconsciência para aumentar a possibilidade de escolha. Quanto mais o indivíduo tiver consciência de ser consciente da própria existência, ele passa a se responsabilizar mais por suas escolhas; assume a liberdade que decerto ele é; reconhece que a existência é um contínuo movimento de construção e reconstrução; que ela, existência, tem um tempo indeterminado para ser vivenciado e que o indivíduo precisa correr os riscos de vivê-la. À medida que ele se torna mais autoconsciente poderá viver mais integrado consigo mesmo; percebe seus limites sem deixar de buscar um melhor aprimoramento dentro de possibilidades reais. O Eu, assim, deixa de ser um atributo ou objeto e passa a ser um processo, um agente transformador da própria existência. Esse é o princípio da transcendência do ego do qual nos referimos.


Referências bibliográficas:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada – Ensaio de ontologia fenomenológica; tradução de Paulo Perdigão – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.


        

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O sonho na visão existencial

            Os sonhos sempre despertaram grande interesse humano. Por que sonhamos? E qual seria sua função? São perguntas que suscitaram estudos de psicólogos, psicanalistas e também dos psicofisiólogos. Freud, o pai da psicanálise, por exemplo, diz que o sonho é a porta de entrada para o inconsciente. Na área da fisiologia, pesquisas revelaram que todos sonham, porém não são todos que conseguem se recordar dos mesmos; que os adultos sonham em média de 5 a 7 séries oníricas, ou seja, a cada 90 minutos um sonho; pessoas idosas não sonham tanto e pessoas que não conseguem se lembrar de seus sonhos são pessoas mais controladas, defensivas frente às situações consideradas por elas como problemáticas. Sonhar então parece ser primordial para o funcionamento do nosso organismo.
            E qual é a importância do sonho na abordagem existencial? Diferentemente da proposta freudiana que considera o sonho como possibilidade para desvelar forças inconscientes que dominam a pessoa, o existencialismo vê como um correlato do mundo desperto do próprio sonhador, uma vez que o sonho e a vida desperta fazem parte da mesma pessoa. Durante o sono as funções vitais permanecem e o sonho se torna uma espécie de continuidade dessa vida desperta num outro mundo, o mundo imaginário. Erthal comenta: “O estar-no-mundo caracteriza a relação da consciência que sonha, pois trata-se de um mundo imaginário no qual a consciência não pode perceber; não se sai da atitude imageante enquanto se sonha. Todo sonho é imagem; é um produto da consciência” (Erthal, p.127, 1989). O sonho desta feita pode trazer uma mensagem existencial para o próprio sonhador, o como ele está e sua posição no mundo.
            O sonho para o existencialismo é a trajetória para uma integração. Integração no sentido de que ele contém partes da nossa personalidade. Consideramos que existe um paralelo, um princípio isomórfico de identidade – conceito oriundo da matemática -, entre o sonho e o sonhador. Os diversos elementos oníricos podem fornecer uma gama de explicações ao que ocorre no aqui-e-agora em seu mundo desperto, é por intermédio da consciência reflexiva que a pessoa pode alcançar tais explicações. Ao contrário de interpretar para o cliente o significado, mantemos o sonho como revelado pelo sonhador, cabendo a ele perceber o seu significado particular, próprio. Se o sonho traz possibilidades existenciais da pessoa, cabe ao terapeuta incentivar o cliente a refletir numa relação entre o sonhar e a vida desperta.
            Quando favorecemos ao cliente relatar seu sonho, ele tem a possibilidade de encontrar seu significado – enquanto desperto – do que foi vivenciado no sonho. O foco principal é o esclarecimento do real ser-no-mundo do sonhador que não existe durante o sonho. Inicialmente ele relata o sonho para depois descrever a reação diante dos fenômenos que lhe aparecem. Qual o sentimento presente? Qual a mensagem existencial está presente nesse estado anímico? Vejamos um pequeno exemplo fictício do trabalho com o sonho no existencialismo. Nosso intuito com tal apresentação é para melhor esclarecer ao leitor como este trabalho pode ser desenvolvido. Lembrando que, para alcançarmos um melhor resultado, é fundamental a participação do cliente. Vamos ao exemplo: Estava me olhando. Não parecia comigo, mas sabia que era eu mesma. Tinha que escolher entre dois caminhos para seguir. Entretanto, estava com medo. Um medo que me paralisava, não conseguia escolher de forma alguma. Um relógio aparece mostrando o tempo que me resta para escolher, como se fosse meu fim. Acordo assustada.
            Primeiramente podemos perguntar ao cliente como ele se sente agora relatando seu sonho (Talvez haja uma relação do sentimento de medo no sonho com seu mundo desperto. Nesse caso, o medo será trabalho com o cliente). Em seguida incentivamos que ele vivencie seu sonho no presente, em partes: ele mesmo, os dois caminhos, o medo, o relógio e o tempo (A escolha cabe ao cliente para verificar com qual personagem inicialmente mais se identifica). A vivência do cliente em cada aspecto do sonho poderá revelar seu ser-no-mundo desperto, como se ele estivesse representando um papel, um personagem do próprio sonho para tirar daí sua mensagem existencial. Pela percepção e compreensão do sonho no aqui-e-agora é que o cliente poderá alcançar sua integração. Esse se configura o princípio isomórfico de identidade com o qual realizamos nosso trabalho.

Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

terça-feira, 3 de julho de 2012

O risco

         O ser humano muitas vezes busca ter garantias na vida - garantia de uma escolha correta; garantia de que será feliz ou mesmo ter a garantia de que não vai sofrer. São tentativas diante da ameaça da própria existência, uma vez que realizando escolhas, ele entra em contato com risco, com a incerteza do seu resultado. Incerteza esta que é geradora de angústia.
            A maneira com ele procura evitar sua angústia é diminuindo suas possibilidades de escolha, ou seja, deixando de interagir com os acontecimentos. Como se quisesse negar sua liberdade para se transformar num objeto. Possibilidade que acaba levando ao sentimento de culpa, que na realidade é o fracasso do próprio projeto – escolhe o não-ser na ilusão de evitar o sofrimento. Contudo, tal escolha faz com que ele perca o contato consigo mesmo. Não conseguindo perceber a si mesmo, não há como reconhecer suas reais possibilidades existenciais, que de uma certa maneira acaba gerando sofrimento.
            Se a liberdade parte da própria consciência, então, a autoconsciência se faz necessária para que a pessoa possa reconhecer seu ser-no-mundo, que a angústia não é uma doença ou fenômeno anormal, mas algo ontológico ao ser humano, ou seja, um modo de ser diante do nada. Nada que é expresso pela incerteza do resultado, do embate com o não-ser, medo de perder os outros e também medo de se perder no outro. Portanto, o reconhecimento da angústia como fazendo parte do seu ser faz com que ele aumente sua liberdade de escolha e, por conseguinte, aceite correr o risco de ser.
            A filosofia existencial tem como premissa que a vida é o risco. Correr o risco a todo o momento realizando escolhas ou tentando evitá-las. Estar cônscio que apenas ele é quem pode realizar seu projeto é o grande risco, uma vez que o reconhecimento da liberdade assusta. Como Erthal cita: “A liberdade é uma conquista do homem, mas que ao mesmo tempo o assusta. É livre para se criar e está livre para executar seu projeto. Desocultando-se, permite-se realizar a sua autocriação. Esse é o principal risco” (ERTHAL, p.50, 1999). O grande temor e tremor do ser humano é o reconhecimento dessa liberdade, que ele está sozinho e que mais ninguém pode arriscar por ele.
            A psicologia existencial que se utiliza da filosofia existencial como orientação na sua atuação, propõe uma ampliação da autoconsciência no sentido de aumentar o potencial de escolha; auxilia ao cliente no aspecto de descobrir-se e de autogerir-se; é ajudá-lo a aceitar os riscos de suas próprias escolhas responsáveis e aceitar a liberdade para realizar sua (re) construção para existir.  
            Para alcançar tal ampliação, se faz necessário passar por algumas etapas que procuraremos explicar como intuito de compreensão.
            Num primeiro momento, existe uma desorganização do conteúdo expresso pelo cliente. O problema é descrito, comumente existe uma atitude bastante crítica com relação à auto-imagem, não há nesse momento conscientização que ele faz parte do problema. Limita-se a descrever os problemas sem entrar em contato diretamente com eles. Uma atitude racional domina o sentimento bloqueando-o de encontrar sua verdade.
            Em seguida, existe uma maior exploração do problema. Este agora faz parte do cliente. Há um questionamento dos valores atuais e uma nova maneira emerge com o modo atual de existir. As contradições são reconhecidas e fazem com que o cliente busque uma forma mais consciente do eu para perceber melhor o seu comportamento.
            Uma organização começa a surgir do momento que o cliente modifica o foco para si mesmo. O que antes era desorganizado passa a ter uma organização do ponto de vista de significação pessoal. Claro que não é acabando com os problemas que o cliente atinge o crescimento, mas sabendo que eles existem e que tem capacidade resolvê-los à medida que vão aparecendo. Ele reconhece suas limitações, sem deixar de buscar um melhor aprimoramento. Razão e sentimento passam a ser integrados. O cliente agora consegue aceitar a si mesmo.
            Acreditamos assim que uma maior tomada de consciência por parte do cliente, faça com que ele reconheça suas próprias capacidades existenciais. Capacidades que são reconhecidas a partir de um contato maior consigo mesmo, que a angústia faz parte do seu ser e que precisa correr os riscos pelas escolhas efetuadas. À medida que ele adquire maior consciência do que está fazendo e como está fazendo, poderá ser mais responsável por sua experiência; o foco deixa de ser o externo, passando a dar maior valor a experiência pessoal como referência de suas decisões. Confiando mais em si mesmo, poderá arriscar-se. O eu agora é visto como processo e não mais como um objeto.

Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.