segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O sonho na visão existencial

            Os sonhos sempre despertaram grande interesse humano. Por que sonhamos? E qual seria sua função? São perguntas que suscitaram estudos de psicólogos, psicanalistas e também dos psicofisiólogos. Freud, o pai da psicanálise, por exemplo, diz que o sonho é a porta de entrada para o inconsciente. Na área da fisiologia, pesquisas revelaram que todos sonham, porém não são todos que conseguem se recordar dos mesmos; que os adultos sonham em média de 5 a 7 séries oníricas, ou seja, a cada 90 minutos um sonho; pessoas idosas não sonham tanto e pessoas que não conseguem se lembrar de seus sonhos são pessoas mais controladas, defensivas frente às situações consideradas por elas como problemáticas. Sonhar então parece ser primordial para o funcionamento do nosso organismo.
            E qual é a importância do sonho na abordagem existencial? Diferentemente da proposta freudiana que considera o sonho como possibilidade para desvelar forças inconscientes que dominam a pessoa, o existencialismo vê como um correlato do mundo desperto do próprio sonhador, uma vez que o sonho e a vida desperta fazem parte da mesma pessoa. Durante o sono as funções vitais permanecem e o sonho se torna uma espécie de continuidade dessa vida desperta num outro mundo, o mundo imaginário. Erthal comenta: “O estar-no-mundo caracteriza a relação da consciência que sonha, pois trata-se de um mundo imaginário no qual a consciência não pode perceber; não se sai da atitude imageante enquanto se sonha. Todo sonho é imagem; é um produto da consciência” (Erthal, p.127, 1989). O sonho desta feita pode trazer uma mensagem existencial para o próprio sonhador, o como ele está e sua posição no mundo.
            O sonho para o existencialismo é a trajetória para uma integração. Integração no sentido de que ele contém partes da nossa personalidade. Consideramos que existe um paralelo, um princípio isomórfico de identidade – conceito oriundo da matemática -, entre o sonho e o sonhador. Os diversos elementos oníricos podem fornecer uma gama de explicações ao que ocorre no aqui-e-agora em seu mundo desperto, é por intermédio da consciência reflexiva que a pessoa pode alcançar tais explicações. Ao contrário de interpretar para o cliente o significado, mantemos o sonho como revelado pelo sonhador, cabendo a ele perceber o seu significado particular, próprio. Se o sonho traz possibilidades existenciais da pessoa, cabe ao terapeuta incentivar o cliente a refletir numa relação entre o sonhar e a vida desperta.
            Quando favorecemos ao cliente relatar seu sonho, ele tem a possibilidade de encontrar seu significado – enquanto desperto – do que foi vivenciado no sonho. O foco principal é o esclarecimento do real ser-no-mundo do sonhador que não existe durante o sonho. Inicialmente ele relata o sonho para depois descrever a reação diante dos fenômenos que lhe aparecem. Qual o sentimento presente? Qual a mensagem existencial está presente nesse estado anímico? Vejamos um pequeno exemplo fictício do trabalho com o sonho no existencialismo. Nosso intuito com tal apresentação é para melhor esclarecer ao leitor como este trabalho pode ser desenvolvido. Lembrando que, para alcançarmos um melhor resultado, é fundamental a participação do cliente. Vamos ao exemplo: Estava me olhando. Não parecia comigo, mas sabia que era eu mesma. Tinha que escolher entre dois caminhos para seguir. Entretanto, estava com medo. Um medo que me paralisava, não conseguia escolher de forma alguma. Um relógio aparece mostrando o tempo que me resta para escolher, como se fosse meu fim. Acordo assustada.
            Primeiramente podemos perguntar ao cliente como ele se sente agora relatando seu sonho (Talvez haja uma relação do sentimento de medo no sonho com seu mundo desperto. Nesse caso, o medo será trabalho com o cliente). Em seguida incentivamos que ele vivencie seu sonho no presente, em partes: ele mesmo, os dois caminhos, o medo, o relógio e o tempo (A escolha cabe ao cliente para verificar com qual personagem inicialmente mais se identifica). A vivência do cliente em cada aspecto do sonho poderá revelar seu ser-no-mundo desperto, como se ele estivesse representando um papel, um personagem do próprio sonho para tirar daí sua mensagem existencial. Pela percepção e compreensão do sonho no aqui-e-agora é que o cliente poderá alcançar sua integração. Esse se configura o princípio isomórfico de identidade com o qual realizamos nosso trabalho.

Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

terça-feira, 3 de julho de 2012

O risco

         O ser humano muitas vezes busca ter garantias na vida - garantia de uma escolha correta; garantia de que será feliz ou mesmo ter a garantia de que não vai sofrer. São tentativas diante da ameaça da própria existência, uma vez que realizando escolhas, ele entra em contato com risco, com a incerteza do seu resultado. Incerteza esta que é geradora de angústia.
            A maneira com ele procura evitar sua angústia é diminuindo suas possibilidades de escolha, ou seja, deixando de interagir com os acontecimentos. Como se quisesse negar sua liberdade para se transformar num objeto. Possibilidade que acaba levando ao sentimento de culpa, que na realidade é o fracasso do próprio projeto – escolhe o não-ser na ilusão de evitar o sofrimento. Contudo, tal escolha faz com que ele perca o contato consigo mesmo. Não conseguindo perceber a si mesmo, não há como reconhecer suas reais possibilidades existenciais, que de uma certa maneira acaba gerando sofrimento.
            Se a liberdade parte da própria consciência, então, a autoconsciência se faz necessária para que a pessoa possa reconhecer seu ser-no-mundo, que a angústia não é uma doença ou fenômeno anormal, mas algo ontológico ao ser humano, ou seja, um modo de ser diante do nada. Nada que é expresso pela incerteza do resultado, do embate com o não-ser, medo de perder os outros e também medo de se perder no outro. Portanto, o reconhecimento da angústia como fazendo parte do seu ser faz com que ele aumente sua liberdade de escolha e, por conseguinte, aceite correr o risco de ser.
            A filosofia existencial tem como premissa que a vida é o risco. Correr o risco a todo o momento realizando escolhas ou tentando evitá-las. Estar cônscio que apenas ele é quem pode realizar seu projeto é o grande risco, uma vez que o reconhecimento da liberdade assusta. Como Erthal cita: “A liberdade é uma conquista do homem, mas que ao mesmo tempo o assusta. É livre para se criar e está livre para executar seu projeto. Desocultando-se, permite-se realizar a sua autocriação. Esse é o principal risco” (ERTHAL, p.50, 1999). O grande temor e tremor do ser humano é o reconhecimento dessa liberdade, que ele está sozinho e que mais ninguém pode arriscar por ele.
            A psicologia existencial que se utiliza da filosofia existencial como orientação na sua atuação, propõe uma ampliação da autoconsciência no sentido de aumentar o potencial de escolha; auxilia ao cliente no aspecto de descobrir-se e de autogerir-se; é ajudá-lo a aceitar os riscos de suas próprias escolhas responsáveis e aceitar a liberdade para realizar sua (re) construção para existir.  
            Para alcançar tal ampliação, se faz necessário passar por algumas etapas que procuraremos explicar como intuito de compreensão.
            Num primeiro momento, existe uma desorganização do conteúdo expresso pelo cliente. O problema é descrito, comumente existe uma atitude bastante crítica com relação à auto-imagem, não há nesse momento conscientização que ele faz parte do problema. Limita-se a descrever os problemas sem entrar em contato diretamente com eles. Uma atitude racional domina o sentimento bloqueando-o de encontrar sua verdade.
            Em seguida, existe uma maior exploração do problema. Este agora faz parte do cliente. Há um questionamento dos valores atuais e uma nova maneira emerge com o modo atual de existir. As contradições são reconhecidas e fazem com que o cliente busque uma forma mais consciente do eu para perceber melhor o seu comportamento.
            Uma organização começa a surgir do momento que o cliente modifica o foco para si mesmo. O que antes era desorganizado passa a ter uma organização do ponto de vista de significação pessoal. Claro que não é acabando com os problemas que o cliente atinge o crescimento, mas sabendo que eles existem e que tem capacidade resolvê-los à medida que vão aparecendo. Ele reconhece suas limitações, sem deixar de buscar um melhor aprimoramento. Razão e sentimento passam a ser integrados. O cliente agora consegue aceitar a si mesmo.
            Acreditamos assim que uma maior tomada de consciência por parte do cliente, faça com que ele reconheça suas próprias capacidades existenciais. Capacidades que são reconhecidas a partir de um contato maior consigo mesmo, que a angústia faz parte do seu ser e que precisa correr os riscos pelas escolhas efetuadas. À medida que ele adquire maior consciência do que está fazendo e como está fazendo, poderá ser mais responsável por sua experiência; o foco deixa de ser o externo, passando a dar maior valor a experiência pessoal como referência de suas decisões. Confiando mais em si mesmo, poderá arriscar-se. O eu agora é visto como processo e não mais como um objeto.

Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

terça-feira, 29 de maio de 2012


Método Fenomenológico

         Método desenvolvido por Edmund Husserl (1859-1938) foi criado na tentativa de superar a cisão entre as duas principais correntes da filosofia contemporânea – o racionalismo e o empirismo. O primeiro pode ser sintetizado na máxima racionalista do francês René Descartes: Cogito ergo sum ou “Penso, logo existo”. Sua visão racional do mundo coloca como única certeza o pensar e que não posso duvidar dessa atitude. O segundo expresso na proposta do empirista escocês David Hume. Ele enfatizava que só podemos adquirir o conhecimento a partir da experiência imediata através dos sentidos, ou seja, quando experimentamos algo ou situação pelos nossos sentidos é que de fato podemos conhecer.

            Husserl tentou solucionar tal impasse propondo que devemos “voltar às coisas mesmas”. Mas o que são “as coisas” para ele? São os fenômenos como aparecem à consciência; a experiência imediata que precede o pensamento ou a vivência que temos dos fenômenos. São eles que devem ser investigados pelos filósofos. Daí o nome dado por ele para essa atividade de fenomenologia.

            Desta feita, Husserl pretende resolver o dualismo entre essência e aparência quando propõe suas duas máximas: “Toda consciência é consciência de algo” e “O objeto é sempre objeto para a consciência”, expressam o princípio da intencionalidade do pensador. Consciência e objeto estão ligados diretamente nesse processo, uma vez que não existe consciência sem objeto para desvelá-lo, assim como o objeto não existe sem uma consciência para apreendê-lo. Portanto, a oposição idealismo e realismo parece solucionado, assim como relação entre ser e consciência superada. Como Erthal diz: “A consciência não é um lugar, tal como uma caixa que abriga conteúdos mentais, conforme a concepção wundtiana, mas uma espécie de movimento para fugir de si mesma, um escape para fora de si, para poder ter uma existência [...]” (ERTHAL, p.29, 1989). A consciência nesse aspecto perde a concepção de mero receptáculo onde armazenaria informações, passando a alcançar os objetos que para ela (consciência) aparecem como fenômenos.

 A descrição dos fenômenos como aparecem à consciência - método fenomenológico – revelam que cada fenômeno apresenta um núcleo significativo denominado de eidos ou essência. E para alcançarmos à essência básica se faz necessário diversas reduções do fenômeno, que Husserl denominou de epoché ou redução fenomenológica. Todos os condicionamentos aprendidos: histórico-sócio-cultural são colocados “entre parênteses”, a ênfase recai única e exclusivamente na vivência do sujeito, na maneira como ele se relaciona com o fenômeno. Só assim, chegaremos à essência do fenômeno.

E como o método fenomenológico é aplicado na terapia existencial? É usado para captar a pessoa como de fato ela é, sem idealizações. Este método procura compreender o indivíduo como um ser-no-mundo, único e particular. O método fenomenológico não se trata de um método ortodoxo de terapia, mas sim, uma maneira de compreender a realidade expressa pelo cliente, suas intenções no mundo. Para que isso efetivamente aconteça, é necessário que terapeuta e cliente estejam juntos, que possam estabelecer um encontro verdadeiro, uma vez que cada encontro-relação é único.

O cliente traz o fenômeno – problema. O terapeuta deve suspender seus valores e sentimentos pessoais para captar aqueles expressos pelo cliente, como se deixasse seu “eu” suspenso na relação para servir como um espelho que reflete às intenções do seu cliente. Como ele se sente e o que ele demonstra ao relatar sua questão. Todo e qualquer juízo externo à vivência é suprimido. Diversas reduções fenomenológicas são realizadas para alcançar esse intuito: redução teológica, redução psicológica, etc. A empatia, nesse caso, é que possibilita o verdadeiro encontro na qual o terapeuta se coloca no lugar do seu cliente para perceber seu mundo fenomênico. Já o cliente tem a possibilidade de se compreender por intermédio do terapeuta. A compreensão empática então é o pilar do método fenomenológico. 





Referências Bibliográficas:



ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia Vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.



ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Treinamento em psicoterapia vivencial; Campinas, SP: Livro Pleno, 2004.




sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sugestões de leitura

MACIEL, Luiz Carlos. Sartre – Vida e Obra; São Paulo; Paz e Terra Ed., 1986.
Livro que faz parte da coleção “Vida e Obra” e que o autor proporciona ao leitor um contato abrangente à obra de Jean-Paul Sartre.

SARTRE, Jean-Paul. A Náusea; tradução de Rita Braga; Rio de Janeiro; Nova Fronteira Ed., 2000.
Romance que versa sobre a contingência do mundo. Antoine Roquetin, o protagonista, experimenta que está no mundo de maneira gratuita, por nada e sem justificativa. O contato com essa gratuidade provoca nele a náusea.

SARTRE, Jean-Paul. O imaginário; tradução de Duda Machado; São Paulo; Ática Ed., 1996.
Obra que propõe uma investigação acerca das imagens. Estas não seriam tratadas pelo filósofo como coisas, mas sim, como uma forma de consciência. Para elucidar tal investigação, utiliza a fenomenologia de Edmund Husserl e sua noção da intencionalidade.

SARTRE, Jean-Paul. Furacão sobre Cuba; Rio de Janeiro; Editora do Autor, 1986.
Trata-se do testemunho de Sartre acerca da revolução cubana. Uma coletânea de artigos escritos em especial para “France-Soir” e que foram reunidos em livro.

SARTRE, Jean- Paul. Saint Genet: ator e mártir; tradução de Lucy Magalhães; Petrópolis, RJ: Vozes Ed., 2002.
Estudo do filósofo sobre Jean Genet. Um homem desclassificado, sem perspectiva para seguir sua vida e que acaba escolhendo como saída à literatura. O projeto humano caracterizado pelo que Sartre denominou de psicanálise existencial.


SARTRE, Jean-Paul. O Diabo e o bom Deus; tradução de Maria Jacintha; São Paulo; Círculo do livro Ed., 1974.
Peça teatral que apresenta a aventura do personagem, Goetz, na sua tentativa infrutífera de realizar a ideia do mal absoluto, assim como também do bem absoluto, uma vez que ambos os projetos estão desvinculados da realidade concreta.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo; tradução de Vergílio Ferreira; São Paulo; Abril Cultural Ed., 1973.
Conferência que o filósofo explica o existencialismo como uma moral da ação. A vida humana não é uma essência pré-determinada, mas algo para ser vivido, construído. Portanto, somente depois de existir que o ser humano constrói sua essência.

SARTRE, Jean-Paul. A Idade da razão: os caminhos da liberdade 1; tradução de Sérgio Milliet; Rio de Janeiro; Nova Fronteira Ed., 1983.
Romance que faz parte da trilogia, Os caminhos da liberdade. Trata-se da questão da liberdade e da tentativa de negá-la. O personagem, Mathieu Delarue, é tomado pela angústia e sofrimento de tal tentativa.


SARTRE, Jean-Paul. Sursis: os caminhos da liberdade 2; tradução de Sérgio Milliet; São Paulo; Abril Cultural Ed., 1974.
Segundo volume de Os caminhos da liberdade. O filósofo procura mostrar a interdependência de todas as ações humanas, que todos os atos concretos acabam influenciando na liberdade de outrem.

SARTRE, Jean-Paul. Com a morte na alma: os caminhos da liberdade 3; tradução de Sérgio Milliet; Rio de Janeiro; Nova fronteira Ed., 1983.
Último volume de Os caminhos da liberdade. A liberdade só tem algum significado quando em ato, ou seja, pela capacidade do próprio ser humano em modificar alguma realidade.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada – Ensaio de ontologia fenomenológica; tradução de Paulo Perdigão; Petrópolis, RJ: Vozes Ed., 1997.
Obra mais famosa do filósofo. São extensas análises filosóficas que propõem uma teoria finalizada do ser, da qual o próprio Sartre denominou de psicanálise existencial - a liberdade como condenação humana.

STRATHERN, Paul. Sartre em 90 minutos; tradução de Marcus Penchel; Rio de Janeiro; Jorge Zahar Ed., 1999.
Coleção Filósofos em 90 minutos. O autor versa sobre a vida do pensador francês e suas principais ideias.







Boa leitura...















sábado, 7 de abril de 2012

Auto-imagem ou projeto original

            “Minha família me fez desse jeito, por isso que tenho esse comportamento” ou “não posso fazer nada, pois já nasci assim mesmo”. Quem já não ouviu essas frases um dia? Frases comumente ecoadas em nosso cotidiano e que parece colocar a existência humana numa eqüidade com qualquer objeto - como uma mesa, por exemplo. Ela, mesa, foi arquitetada por alguém e, posteriormente, talvez, fabricada por outra pessoa que a concretizou como mesa. Portanto, tal objeto não pode ser outra coisa, uma vez que foi construído para esse propósito. Além, é claro, que a própria mesa não pode individualizar-se, ou seja, transformar a si mesma.
            Será que a existência humana teria alguma similaridade com qualquer objeto finalizado, como no caso do citado exemplo? Somos então construídos e não podemos interferir nessa construção?  Pelo viés existencialista, que tem como premissa a afirmação de que “a existência precede à essência”, a existência não é algo pronto ou acabado, mas sim, que o ser humano é lançado no mundo, ou seja, ele primeiro deve nascer para então ter a possibilidade de construção da sua essência. Somente presente no mundo, que o ser humano pode estabelecer seu projeto. Antes disso, não há projeto, pois o mesmo só poderá revelar-se através dos atos do indivíduo; pelas suas próprias escolhas efetuadas. 
            Então as influências recebidas durante nossa existência não afetariam nosso modo de ser? Não necessariamente, pois vai depender da validade ou não que uma pessoa dará em tais forças que atuaram nele. Por exemplo, uma pessoa desde pequeno recebeu uma informação de que é incapaz, que não poderia fazer nada na vida, uma vez que sua incapacidade atribuída não lhe permitiria alcançar qualquer objetivo mínimo que fosse. Provavelmente, essa mesma pessoa terá uma imagem - construída pelo outro e não por ele mesmo – de incompetente. Contudo, do momento que ele reconhece sua existência como sendo de sua inteira responsabilidade, ou seja, cabe a ele mesmo (re) construir-se pelas próprias experiências e não por informações atribuídas, que ele reunirá condições de construir o seu próprio projeto e não de assumir um projeto que atribuíram a ele. Mas tal reconhecimento não é mudança e a pessoa pode escolher manter o projeto que escolheram para ela. Seria uma espécie de tentativa para evitar o risco da própria escolha, mas que na realidade acaba por afirmá-lo. Como podemos atestar nas palavras de Erthal: “Conscientizar do projeto não significa apenas alterá-lo; pode ser que isso o leve a mantê-lo. É uma escolha que em qualquer sentido leva ao risco” (ERTHAL, p. 57, 1989). A má-fé passa a ser uma saída. Uma saída para não assumir a liberdade e que mantém inalterada a imagem colocada pelo outro. A pessoa escolhe apenas ser um ser-para-o-outro, uma espécie de condenação. Como se a pessoa escolhesse ser uma mesa, sem possibilidades existenciais.
            Mas o que caracteriza o projeto original? São os valores que atribuímos às coisas, às situações, que definem nosso projeto original. Do momento que nossa consciência volta às coisas, passamos a refletir, a pensar sobre qual projeto queremos assumir. Daí Sartre dizer que somos uma liberdade e não que temos uma liberdade. A escolha passa, obrigatoriamente, pelo critério de avaliação da própria pessoa e não que ela teria que buscar tal critério por ainda não tê-lo. Quando a pessoa cria valores, ela afirma à própria liberdade que ela é. Ela escolhe a ela mesma.
            E quando a pessoa não escolhe a si mesma. Como ajudá-la?  Na psicologia existencial procuramos compreender como essa pessoa estabeleceu a imagem de si mesma. A proposta é verificarmos historicamente a vida da pessoa, não para descobrir as causas que levaram a certos comportamentos, mas para buscar um entendimento de como aquela pessoa valorizava suas possibilidades existenciais. Acreditamos que tal entendimento fomentará melhor compreensão das escolhas efetuadas. Escolhas que em alguns casos não representam à própria pessoa, mas duma imagem criada. Imagem criada por outrem ou mesmo idealizada pela própria pessoa que acaba impedindo de criar seu projeto original. Este, só poderá ser construído do momento que a pessoa aceita a si mesma, com suas dificuldades e limitações, mas sem deixar de abdicar na busca para atualização das possibilidades efetivas.
            A trajetória mais plausível é o reconhecimento da própria pessoa na forma como ela lida com seus problemas. Ter consciência das defesas utilizadas para enfrentar tais problemas e visar uma postura mais autêntica na sua expressão. Isso requer um engajamento da pessoa para viver uma relação mais amigável com ela mesma, com a própria vivencia. Não se trata de um processo simples e fácil, pois, à medida que a pessoa percebe algo novo em si mesmo, poderá rejeitar.  Vivenciando um aspecto de si mesmo, negado até momento, sem pressão e aceitando-se, é que ela poderá assumi-lo como fazendo parte de si mesmo. O auxílio de alguma pessoa que ele considera importante nesse processo – não especificamente o terapeuta – poderá facilitar sua livre expressão e a busca dos seus valores particularmente positivos, aqueles voltados para as suas reais necessidades. As cobranças direcionadas a si mesmo diminuem a partir da sua capacidade, uma vez que não precisa ser aceito totalmente. Conseguindo aceitar-se, constata que é aceito, ou não por completo; não caracteriza um conflito. A pessoa então passa a viver seu projeto original, reconhecendo seus limites, mas buscando realisticamente pelo aprimoramento existencial.


Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.








sexta-feira, 9 de março de 2012

Má-Fé

            Quiçá você conheça algumas pessoas que parecem viver de maneira programada, como se as mesmas seguissem um roteiro definido para existir. São pessoas que escolhem abdicar da real posição de protagonistas que são para viverem nos bastidores. O medo do holofote da existência faz com que elas adotem uma atitude de fuga das próprias decisões. A saída que elas encontram, é de antecipar a derrota antes de vivenciá-la concretamente – atitude de má-fé.
            Sartre define o comportamento de má-fé como atitude da pessoa mentir para si mesma: “Por certo, para quem pratica a má-fé, trata-se de mascarar uma verdade desagradável ou apresentar como verdade um erro agradável. A má-fé tem na aparência, portanto, a estrutura da mentira” (SARTRE, p.94, 1997). A pessoa ilude a si mesma, esconde a verdade para não ter que lidar com ela. Daí o aspecto de aparência da má-fé com a mentira. Sendo que na mentira existe obrigatoriamente um interlocutor. No caso da má-fé existe uma unidade da consciência.
            Mas por que uma pessoa iria mentir para si mesma? Ela estaria cônscia de tal comportamento? A mentira seria uma tentativa de evitar o peso da escolha própria; não aceitar a liberdade que a própria pessoa é. Ela busca virar uma coisa que seja agradável ao olhar do outro. Sartre chamou tal atitude de espírito de seriedade – o ato é justificado pela retina do outro, ou seja, o comportamento da pessoa é definido pelo outro como algo pronto. Por exemplo, uma pessoa pode ter um comportamento submisso. Possivelmente, será reconhecido pelo outro apenas como uma pessoa submissa(grifo meu).
            Mas a própria pessoa é cônscia desse comportamento? Segundo o existencialismo, sim. Todo ato tem uma intencionalidade de acordo com Edmund Husserl, criador do método fenomenológico, e que Sartre utiliza na sua filosofia para compreensão da existência humana. Toda ação humana tem uma intenção. A controvérsia levantada por algumas pessoas é que nem tudo pode estar consciente duma pessoa. No entanto, o existencialismo sartreano propõe que toda ação é consciente. Não há escolha sem intenção.  Como Erthal diz: “[...] Mas se considerarmos que a escolha profunda seja precisamente o nosso ser – deve-se ser consciente, a fim de escolher; e deve-se escolher, a fim de ser consciente -, escolha e consciência são unos e, portanto, não pode haver inconsciência nisso” (ERTHAL, p.111, 1989).  Destarte, toda escolha é consciente da pessoa, senão a mesma não poderia escolher. Como escolher sem intenção? O que acontece muitas vezes é que a própria pessoa não tem compreensão da escolha efetuada. Compreensão difere de estar consciente, como o próprio Sartre elucida. Ele diz que toda ação é consciente, mas não tem uma compreensão. Para que haja compreensão, é necessária a reflexão, ou seja, voltar o pensamento para atitude produzida. Só assim, a pessoa poderá compreender sua intenção. É a passagem da consciência irreflexiva ou de primeiro grau para a consciência reflexiva ou de segundo grau. Assim, a pessoa sempre terá consciência em suas ações, mas, para compreendê-las, precisará utilizar a reflexão.
            A proposta da psicologia existencial é favorecer que o cliente reconheça a má-fé. Reconhecendo-a, ele poderá ter uma atitude em boa-fé, ou seja, poderá compreender sua atitude de má-fé e, buscar, pela ação, criar um novo projeto, qual seja, de aceitar que é uma liberdade e que pode escolher quem deseja ser. Não como algo finalizado, mas como um ser humano com diversas possibilidades existenciais. Possibilidades que somente a própria pessoa pode construir. Afinal, o projeto de construção e (re) construção é particular, pessoal. Nenhuma outra pessoa poderá fazer ou escolher o que é de nossa inteira responsabilidade. Portanto, temos a obrigação de escolher ficar no palco da vida e não nos bastidores.




Referências Bibliográficas:

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada; tradução de Paulo Perdigão – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

ERTHAL, Tereza Cristina. Terapia vivencial: uma abordagem em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.






sábado, 11 de fevereiro de 2012

Responsabilidade

            Provavelmente, você escolheu casar ou não; seguir um partido político, quem sabe; ter uma religião ou mesmo ser ateu; trabalhar numa empresa ou como profissional liberal. Todos são exemplos de possíveis escolhas que você pode ter feito ou ainda pode fazê-lo um dia na vida. Parece simples, não é mesmo, você escolhe entre isso ou aquilo e pronto. Como se você não tivesse nenhum compromisso com a escolha efetuada.
Na visão existencialista, todo ser humano é responsável pelas escolhas efetuadas. Não existe uma escolha descompromissada da própria pessoa. Como Sartre sabiamente disse: “[...] Mas se verdadeiramente a existência precede a essência, o homem é responsável por aquilo que é [...]” (SARTRE, p.12,1973). Sendo assim, você e cada ser humano em qualquer época são responsáveis por cada escolha, uma vez que cada ato de escolher passa pela subjetividade. Mas talvez você possa estar pensando, por exemplo: não escolhi perder meu emprego? A empresa que trabalhava findou, não foi minha responsabilidade. Sim, um ato externo a nós não tem como ser controlado, mas o que fazemos com tal circunstância, sim. A subjetividade faz parte da condição humana e não das coisas ou fatos. Daí o peso da responsabilidade pela escolha, da postura que a pessoa vai tomar em relação ao ocorrido. Ela pode enfrentar a situação mesmo sendo difícil ou fugir da mesma. Ambas são escolhas e ambas são de inteira responsabilidade da própria pessoa.
A questão sine qua non para o existencialismo é fazer com que a pessoa reconheça sua responsabilidade no mundo. Cada escolha que realizo na vida, sou EU quem decide. Faço parte dessa escolha, afinal de contas, minha escolha passou por um critério de avaliação pessoal, particular, ou seja, pela minha subjetividade.
Tal proposta existencialista pode soar para muitos como algo assustador. Imagine então, não importa o que aconteça comigo, EU é quem devo e tenho a obrigação de fazer alguma coisa? Estaria assim desprotegido no mundo? À mercê do que pode acontecer comigo? Você pode querer sumir diante de tais indagações, é uma escolha. Mas na realidade, nós, existencialistas, queremos de fato afirmar a subjetividade humana e sua capacidade para criação de saídas. Visto que, do momento que impelimos uma ação, estamos criando algo e não esperando que este apareça por algum merecimento divino ou um destino. Não estamos falando duma ação qualquer, mas sim, uma ação responsável, pois você está (re) criando a si mesmo. Somente você pode escolher qual construção quer fazer de si mesmo. Talvez, seja essa a visão considerada por alguns como assustadora na proposta existencialista, qual seja, de que você é o único que pode fazer alguma coisa. Muitos questionam tal capacidade humana diante de algumas circunstâncias vivenciadas. Claro que certos fatos podem ser duros de encarar, não estamos dizendo que devemos negar que tais situações podem nos acometer, pelo contrário, devemos afirmá-los para que possamos criar soluções. Como mencionamos anteriormente, não podemos interferir nos fatos vindouros, mas podemos, responsavelmente, interferir na forma como nos relacionamos diante do que ainda não é. Lembrando que para ser, algo ou situação, precisa estar relacionado com uma subjetividade. Como, por exemplo, num jogo de cartas: não sabemos as cartas que virão para nossas mãos até recebê-las. Só do momento que estamos com elas em mãos é que poderemos avaliá-las como sendo boas ou não. Mesmo assim, isso não impede de continuarmos jogando, pois a capacidade de quem está jogando na maioria das vezes prevalece mais do que a posse das cartas consideradas boas para vencer um jogo. Possuí-las, não quer dizer que o jogo já está ganho, mas saber como usá-las poderá determinar um possível caminho para vitória.
  Portanto, tal proposta existencialista como alguns equivocadamente pensam não é assustador ou pessimista, mas sim, extremamente positivo, uma vez que colocamos nas mãos de quem é de direito a responsabilidade pelas próprias escolhas. Escolhas estas que podem ser modificadas a qualquer momento. Afinal de contas, a subjetividade é uma abertura e não algo pré-determinado ou definido. Mas e quando a pessoa não quer aceitar isso? Que ela deve construir a si mesma e reconstruir-se a cada momento. Nomeamos tal atitude de má-fé - seria uma tentativa de a pessoa fugir da liberdade e responsabilidade que ela é - da qual versaremos no texto a seguir.


Referência Bibliográfica:

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Coleção os pensadores; 1ª edição; São Paulo; Abril Cultural; 1973.