sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sugestões de leitura

MACIEL, Luiz Carlos. Sartre – Vida e Obra; São Paulo; Paz e Terra Ed., 1986.
Livro que faz parte da coleção “Vida e Obra” e que o autor proporciona ao leitor um contato abrangente à obra de Jean-Paul Sartre.

SARTRE, Jean-Paul. A Náusea; tradução de Rita Braga; Rio de Janeiro; Nova Fronteira Ed., 2000.
Romance que versa sobre a contingência do mundo. Antoine Roquetin, o protagonista, experimenta que está no mundo de maneira gratuita, por nada e sem justificativa. O contato com essa gratuidade provoca nele a náusea.

SARTRE, Jean-Paul. O imaginário; tradução de Duda Machado; São Paulo; Ática Ed., 1996.
Obra que propõe uma investigação acerca das imagens. Estas não seriam tratadas pelo filósofo como coisas, mas sim, como uma forma de consciência. Para elucidar tal investigação, utiliza a fenomenologia de Edmund Husserl e sua noção da intencionalidade.

SARTRE, Jean-Paul. Furacão sobre Cuba; Rio de Janeiro; Editora do Autor, 1986.
Trata-se do testemunho de Sartre acerca da revolução cubana. Uma coletânea de artigos escritos em especial para “France-Soir” e que foram reunidos em livro.

SARTRE, Jean- Paul. Saint Genet: ator e mártir; tradução de Lucy Magalhães; Petrópolis, RJ: Vozes Ed., 2002.
Estudo do filósofo sobre Jean Genet. Um homem desclassificado, sem perspectiva para seguir sua vida e que acaba escolhendo como saída à literatura. O projeto humano caracterizado pelo que Sartre denominou de psicanálise existencial.


SARTRE, Jean-Paul. O Diabo e o bom Deus; tradução de Maria Jacintha; São Paulo; Círculo do livro Ed., 1974.
Peça teatral que apresenta a aventura do personagem, Goetz, na sua tentativa infrutífera de realizar a ideia do mal absoluto, assim como também do bem absoluto, uma vez que ambos os projetos estão desvinculados da realidade concreta.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo; tradução de Vergílio Ferreira; São Paulo; Abril Cultural Ed., 1973.
Conferência que o filósofo explica o existencialismo como uma moral da ação. A vida humana não é uma essência pré-determinada, mas algo para ser vivido, construído. Portanto, somente depois de existir que o ser humano constrói sua essência.

SARTRE, Jean-Paul. A Idade da razão: os caminhos da liberdade 1; tradução de Sérgio Milliet; Rio de Janeiro; Nova Fronteira Ed., 1983.
Romance que faz parte da trilogia, Os caminhos da liberdade. Trata-se da questão da liberdade e da tentativa de negá-la. O personagem, Mathieu Delarue, é tomado pela angústia e sofrimento de tal tentativa.


SARTRE, Jean-Paul. Sursis: os caminhos da liberdade 2; tradução de Sérgio Milliet; São Paulo; Abril Cultural Ed., 1974.
Segundo volume de Os caminhos da liberdade. O filósofo procura mostrar a interdependência de todas as ações humanas, que todos os atos concretos acabam influenciando na liberdade de outrem.

SARTRE, Jean-Paul. Com a morte na alma: os caminhos da liberdade 3; tradução de Sérgio Milliet; Rio de Janeiro; Nova fronteira Ed., 1983.
Último volume de Os caminhos da liberdade. A liberdade só tem algum significado quando em ato, ou seja, pela capacidade do próprio ser humano em modificar alguma realidade.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada – Ensaio de ontologia fenomenológica; tradução de Paulo Perdigão; Petrópolis, RJ: Vozes Ed., 1997.
Obra mais famosa do filósofo. São extensas análises filosóficas que propõem uma teoria finalizada do ser, da qual o próprio Sartre denominou de psicanálise existencial - a liberdade como condenação humana.

STRATHERN, Paul. Sartre em 90 minutos; tradução de Marcus Penchel; Rio de Janeiro; Jorge Zahar Ed., 1999.
Coleção Filósofos em 90 minutos. O autor versa sobre a vida do pensador francês e suas principais ideias.







Boa leitura...















sábado, 7 de abril de 2012

Auto-imagem ou projeto original

            “Minha família me fez desse jeito, por isso que tenho esse comportamento” ou “não posso fazer nada, pois já nasci assim mesmo”. Quem já não ouviu essas frases um dia? Frases comumente ecoadas em nosso cotidiano e que parece colocar a existência humana numa eqüidade com qualquer objeto - como uma mesa, por exemplo. Ela, mesa, foi arquitetada por alguém e, posteriormente, talvez, fabricada por outra pessoa que a concretizou como mesa. Portanto, tal objeto não pode ser outra coisa, uma vez que foi construído para esse propósito. Além, é claro, que a própria mesa não pode individualizar-se, ou seja, transformar a si mesma.
            Será que a existência humana teria alguma similaridade com qualquer objeto finalizado, como no caso do citado exemplo? Somos então construídos e não podemos interferir nessa construção?  Pelo viés existencialista, que tem como premissa a afirmação de que “a existência precede à essência”, a existência não é algo pronto ou acabado, mas sim, que o ser humano é lançado no mundo, ou seja, ele primeiro deve nascer para então ter a possibilidade de construção da sua essência. Somente presente no mundo, que o ser humano pode estabelecer seu projeto. Antes disso, não há projeto, pois o mesmo só poderá revelar-se através dos atos do indivíduo; pelas suas próprias escolhas efetuadas. 
            Então as influências recebidas durante nossa existência não afetariam nosso modo de ser? Não necessariamente, pois vai depender da validade ou não que uma pessoa dará em tais forças que atuaram nele. Por exemplo, uma pessoa desde pequeno recebeu uma informação de que é incapaz, que não poderia fazer nada na vida, uma vez que sua incapacidade atribuída não lhe permitiria alcançar qualquer objetivo mínimo que fosse. Provavelmente, essa mesma pessoa terá uma imagem - construída pelo outro e não por ele mesmo – de incompetente. Contudo, do momento que ele reconhece sua existência como sendo de sua inteira responsabilidade, ou seja, cabe a ele mesmo (re) construir-se pelas próprias experiências e não por informações atribuídas, que ele reunirá condições de construir o seu próprio projeto e não de assumir um projeto que atribuíram a ele. Mas tal reconhecimento não é mudança e a pessoa pode escolher manter o projeto que escolheram para ela. Seria uma espécie de tentativa para evitar o risco da própria escolha, mas que na realidade acaba por afirmá-lo. Como podemos atestar nas palavras de Erthal: “Conscientizar do projeto não significa apenas alterá-lo; pode ser que isso o leve a mantê-lo. É uma escolha que em qualquer sentido leva ao risco” (ERTHAL, p. 57, 1989). A má-fé passa a ser uma saída. Uma saída para não assumir a liberdade e que mantém inalterada a imagem colocada pelo outro. A pessoa escolhe apenas ser um ser-para-o-outro, uma espécie de condenação. Como se a pessoa escolhesse ser uma mesa, sem possibilidades existenciais.
            Mas o que caracteriza o projeto original? São os valores que atribuímos às coisas, às situações, que definem nosso projeto original. Do momento que nossa consciência volta às coisas, passamos a refletir, a pensar sobre qual projeto queremos assumir. Daí Sartre dizer que somos uma liberdade e não que temos uma liberdade. A escolha passa, obrigatoriamente, pelo critério de avaliação da própria pessoa e não que ela teria que buscar tal critério por ainda não tê-lo. Quando a pessoa cria valores, ela afirma à própria liberdade que ela é. Ela escolhe a ela mesma.
            E quando a pessoa não escolhe a si mesma. Como ajudá-la?  Na psicologia existencial procuramos compreender como essa pessoa estabeleceu a imagem de si mesma. A proposta é verificarmos historicamente a vida da pessoa, não para descobrir as causas que levaram a certos comportamentos, mas para buscar um entendimento de como aquela pessoa valorizava suas possibilidades existenciais. Acreditamos que tal entendimento fomentará melhor compreensão das escolhas efetuadas. Escolhas que em alguns casos não representam à própria pessoa, mas duma imagem criada. Imagem criada por outrem ou mesmo idealizada pela própria pessoa que acaba impedindo de criar seu projeto original. Este, só poderá ser construído do momento que a pessoa aceita a si mesma, com suas dificuldades e limitações, mas sem deixar de abdicar na busca para atualização das possibilidades efetivas.
            A trajetória mais plausível é o reconhecimento da própria pessoa na forma como ela lida com seus problemas. Ter consciência das defesas utilizadas para enfrentar tais problemas e visar uma postura mais autêntica na sua expressão. Isso requer um engajamento da pessoa para viver uma relação mais amigável com ela mesma, com a própria vivencia. Não se trata de um processo simples e fácil, pois, à medida que a pessoa percebe algo novo em si mesmo, poderá rejeitar.  Vivenciando um aspecto de si mesmo, negado até momento, sem pressão e aceitando-se, é que ela poderá assumi-lo como fazendo parte de si mesmo. O auxílio de alguma pessoa que ele considera importante nesse processo – não especificamente o terapeuta – poderá facilitar sua livre expressão e a busca dos seus valores particularmente positivos, aqueles voltados para as suas reais necessidades. As cobranças direcionadas a si mesmo diminuem a partir da sua capacidade, uma vez que não precisa ser aceito totalmente. Conseguindo aceitar-se, constata que é aceito, ou não por completo; não caracteriza um conflito. A pessoa então passa a viver seu projeto original, reconhecendo seus limites, mas buscando realisticamente pelo aprimoramento existencial.


Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.








sexta-feira, 9 de março de 2012

Má-Fé

            Quiçá você conheça algumas pessoas que parecem viver de maneira programada, como se as mesmas seguissem um roteiro definido para existir. São pessoas que escolhem abdicar da real posição de protagonistas que são para viverem nos bastidores. O medo do holofote da existência faz com que elas adotem uma atitude de fuga das próprias decisões. A saída que elas encontram, é de antecipar a derrota antes de vivenciá-la concretamente – atitude de má-fé.
            Sartre define o comportamento de má-fé como atitude da pessoa mentir para si mesma: “Por certo, para quem pratica a má-fé, trata-se de mascarar uma verdade desagradável ou apresentar como verdade um erro agradável. A má-fé tem na aparência, portanto, a estrutura da mentira” (SARTRE, p.94, 1997). A pessoa ilude a si mesma, esconde a verdade para não ter que lidar com ela. Daí o aspecto de aparência da má-fé com a mentira. Sendo que na mentira existe obrigatoriamente um interlocutor. No caso da má-fé existe uma unidade da consciência.
            Mas por que uma pessoa iria mentir para si mesma? Ela estaria cônscia de tal comportamento? A mentira seria uma tentativa de evitar o peso da escolha própria; não aceitar a liberdade que a própria pessoa é. Ela busca virar uma coisa que seja agradável ao olhar do outro. Sartre chamou tal atitude de espírito de seriedade – o ato é justificado pela retina do outro, ou seja, o comportamento da pessoa é definido pelo outro como algo pronto. Por exemplo, uma pessoa pode ter um comportamento submisso. Possivelmente, será reconhecido pelo outro apenas como uma pessoa submissa(grifo meu).
            Mas a própria pessoa é cônscia desse comportamento? Segundo o existencialismo, sim. Todo ato tem uma intencionalidade de acordo com Edmund Husserl, criador do método fenomenológico, e que Sartre utiliza na sua filosofia para compreensão da existência humana. Toda ação humana tem uma intenção. A controvérsia levantada por algumas pessoas é que nem tudo pode estar consciente duma pessoa. No entanto, o existencialismo sartreano propõe que toda ação é consciente. Não há escolha sem intenção.  Como Erthal diz: “[...] Mas se considerarmos que a escolha profunda seja precisamente o nosso ser – deve-se ser consciente, a fim de escolher; e deve-se escolher, a fim de ser consciente -, escolha e consciência são unos e, portanto, não pode haver inconsciência nisso” (ERTHAL, p.111, 1989).  Destarte, toda escolha é consciente da pessoa, senão a mesma não poderia escolher. Como escolher sem intenção? O que acontece muitas vezes é que a própria pessoa não tem compreensão da escolha efetuada. Compreensão difere de estar consciente, como o próprio Sartre elucida. Ele diz que toda ação é consciente, mas não tem uma compreensão. Para que haja compreensão, é necessária a reflexão, ou seja, voltar o pensamento para atitude produzida. Só assim, a pessoa poderá compreender sua intenção. É a passagem da consciência irreflexiva ou de primeiro grau para a consciência reflexiva ou de segundo grau. Assim, a pessoa sempre terá consciência em suas ações, mas, para compreendê-las, precisará utilizar a reflexão.
            A proposta da psicologia existencial é favorecer que o cliente reconheça a má-fé. Reconhecendo-a, ele poderá ter uma atitude em boa-fé, ou seja, poderá compreender sua atitude de má-fé e, buscar, pela ação, criar um novo projeto, qual seja, de aceitar que é uma liberdade e que pode escolher quem deseja ser. Não como algo finalizado, mas como um ser humano com diversas possibilidades existenciais. Possibilidades que somente a própria pessoa pode construir. Afinal, o projeto de construção e (re) construção é particular, pessoal. Nenhuma outra pessoa poderá fazer ou escolher o que é de nossa inteira responsabilidade. Portanto, temos a obrigação de escolher ficar no palco da vida e não nos bastidores.




Referências Bibliográficas:

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada; tradução de Paulo Perdigão – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

ERTHAL, Tereza Cristina. Terapia vivencial: uma abordagem em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.






sábado, 11 de fevereiro de 2012

Responsabilidade

            Provavelmente, você escolheu casar ou não; seguir um partido político, quem sabe; ter uma religião ou mesmo ser ateu; trabalhar numa empresa ou como profissional liberal. Todos são exemplos de possíveis escolhas que você pode ter feito ou ainda pode fazê-lo um dia na vida. Parece simples, não é mesmo, você escolhe entre isso ou aquilo e pronto. Como se você não tivesse nenhum compromisso com a escolha efetuada.
Na visão existencialista, todo ser humano é responsável pelas escolhas efetuadas. Não existe uma escolha descompromissada da própria pessoa. Como Sartre sabiamente disse: “[...] Mas se verdadeiramente a existência precede a essência, o homem é responsável por aquilo que é [...]” (SARTRE, p.12,1973). Sendo assim, você e cada ser humano em qualquer época são responsáveis por cada escolha, uma vez que cada ato de escolher passa pela subjetividade. Mas talvez você possa estar pensando, por exemplo: não escolhi perder meu emprego? A empresa que trabalhava findou, não foi minha responsabilidade. Sim, um ato externo a nós não tem como ser controlado, mas o que fazemos com tal circunstância, sim. A subjetividade faz parte da condição humana e não das coisas ou fatos. Daí o peso da responsabilidade pela escolha, da postura que a pessoa vai tomar em relação ao ocorrido. Ela pode enfrentar a situação mesmo sendo difícil ou fugir da mesma. Ambas são escolhas e ambas são de inteira responsabilidade da própria pessoa.
A questão sine qua non para o existencialismo é fazer com que a pessoa reconheça sua responsabilidade no mundo. Cada escolha que realizo na vida, sou EU quem decide. Faço parte dessa escolha, afinal de contas, minha escolha passou por um critério de avaliação pessoal, particular, ou seja, pela minha subjetividade.
Tal proposta existencialista pode soar para muitos como algo assustador. Imagine então, não importa o que aconteça comigo, EU é quem devo e tenho a obrigação de fazer alguma coisa? Estaria assim desprotegido no mundo? À mercê do que pode acontecer comigo? Você pode querer sumir diante de tais indagações, é uma escolha. Mas na realidade, nós, existencialistas, queremos de fato afirmar a subjetividade humana e sua capacidade para criação de saídas. Visto que, do momento que impelimos uma ação, estamos criando algo e não esperando que este apareça por algum merecimento divino ou um destino. Não estamos falando duma ação qualquer, mas sim, uma ação responsável, pois você está (re) criando a si mesmo. Somente você pode escolher qual construção quer fazer de si mesmo. Talvez, seja essa a visão considerada por alguns como assustadora na proposta existencialista, qual seja, de que você é o único que pode fazer alguma coisa. Muitos questionam tal capacidade humana diante de algumas circunstâncias vivenciadas. Claro que certos fatos podem ser duros de encarar, não estamos dizendo que devemos negar que tais situações podem nos acometer, pelo contrário, devemos afirmá-los para que possamos criar soluções. Como mencionamos anteriormente, não podemos interferir nos fatos vindouros, mas podemos, responsavelmente, interferir na forma como nos relacionamos diante do que ainda não é. Lembrando que para ser, algo ou situação, precisa estar relacionado com uma subjetividade. Como, por exemplo, num jogo de cartas: não sabemos as cartas que virão para nossas mãos até recebê-las. Só do momento que estamos com elas em mãos é que poderemos avaliá-las como sendo boas ou não. Mesmo assim, isso não impede de continuarmos jogando, pois a capacidade de quem está jogando na maioria das vezes prevalece mais do que a posse das cartas consideradas boas para vencer um jogo. Possuí-las, não quer dizer que o jogo já está ganho, mas saber como usá-las poderá determinar um possível caminho para vitória.
  Portanto, tal proposta existencialista como alguns equivocadamente pensam não é assustador ou pessimista, mas sim, extremamente positivo, uma vez que colocamos nas mãos de quem é de direito a responsabilidade pelas próprias escolhas. Escolhas estas que podem ser modificadas a qualquer momento. Afinal de contas, a subjetividade é uma abertura e não algo pré-determinado ou definido. Mas e quando a pessoa não quer aceitar isso? Que ela deve construir a si mesma e reconstruir-se a cada momento. Nomeamos tal atitude de má-fé - seria uma tentativa de a pessoa fugir da liberdade e responsabilidade que ela é - da qual versaremos no texto a seguir.


Referência Bibliográfica:

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Coleção os pensadores; 1ª edição; São Paulo; Abril Cultural; 1973.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Site acerca da psicoterapia existencial de Tereza Erthal

Deixo aqui a sugestão do site da minha mestra e orientadora na arte da psicoterapia existencial, Tereza Erthal. Site: http://www.psicoterapiavivencial.com.br/
Uma boa leitura a todos...
Marlos Cordova.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Curso de formação em psicoterapia existencial

               Nova Turma !  Início no dia 1o de fevereiro ( quarta-feira) às 14hs. Sob supervisão de Tereza Erthal, mestre em Psicologia, professora adjunta e supervisora clínica do Departamento de Psicologia da PUC-RJ. Psicoterapeuta, desenvolveu a Psicoterapia Vivencial, abordagem existencial com base no filósofo francês Jean-Paul Sartre.
               Maiores informações, entrar em contato pelo e-mail: etcerthal@gmail.com

Artigo da psicoterapeuta Tereza Erthal (1a parte)

EXISTENCIALISMO: TEORIA E PRÁTICA.
Tereza Erthal[1]

De acordo com Bornheim(em Erthal,1992), o homem atual está andando na corda bamba que se estende entre a segurança do humanismo triunfante, em busca de um eu autônomo,e, de outro extremo, os discursos sobre a dissolução do eu, sobre a robotização e a fuga que empurra o homem a sentir-se deslumbrado em deixar-se ser objeto. Historicamente, a ponderação sobre o humano é a ultima a surgir; antes vieram os astros.  Mas cada cultura inventa um homem e uma concepção da realidade humana afastada da fixidez dos astros. Os que buscam compreender o homem, tentam desenvolver concepções para entender as  expressões de sua instabilidade, interpretando a realidade humana como um conjunto de possíveis. Na verdade, são muitas as perspectivas de analise de tal realidade humana, dentro e fora da Psicologia: existe a História, a Antropologia, a Sociologia, a Filosofia. O homem é interdisciplinar e não há como esgotar esse entendimento através de qualquer pretensão de uma única visão.  Porque tais contribuições são plurais, isso não significa anular as suas próprias construções. O Homem é diálogo e toda a reflexão racional que busque dizer aquilo que ele é talvez tenha que partir do diálogo.
Nos tempos atuais, psicoterapias que exaltam a capacidade do homem de olhar para si de uma forma mais destemida e mais responsável, dando a ele um domínio maior de ação, têm sido mais disputadas. As pessoas estão, cada vez mais, procurando tratamentos que as levem a se responsabilizar mais por elas mesmas, entender a trama em que se envolveram na vida, buscando soluções mais ligadas ao presente, livres de tantas abstrações. Um olhar presentificado é o que se procura mais fortemente hoje, na tentativa de, mais do que resolver problemas diários, compreender e assumir as rédeas de sua vida.  Existencialmente falando, o individuo deve se responsabilizar por si e pelos outros, e deve ser levado a assumir a completude de sua liberdade.  “Terapia é pedagogia: cura e educa e nesse processo existe necessariamente a presença do outro.” ( Bornheim,em Erthal,1992)
  A Terapia  Existencial procura obter respostas especificas a perguntas especificas: Como o individuo escolheu viver a vida que vive? Como este sujeito experimentou a sua situação, de maneira única, propriamente a sua e de mais ninguém? As respostas dos deterministas se baseiam nas estruturas genéricas, mas isso não leva à compreensão de um exemplo individual. Não se pode reduzir uma pessoa a um único conceito explicativo genérico. Cada pessoa realmente tem uma forma própria de viver a situação escolhida. Não se trata de fazer o individuo tomar consciência de si, pois ele é um ser auto-consciente sempre nesta filosofia; trata-se sim de fazê-lo tomar conhecimento de si ( nem sempre a consciência é cognoscente). É a descoberta do Projeto Original: o que determinado individuo fez de si mesmo.
Cada escolha representa a minha decisão sobre a espécie de homem que eu sou, a vida que levo, o mundo em que vivo. Tais escolhas não são episódicas, mas, ao contrário, integram-se às demais em uma totalização em curso. Em um ato, por mais simples que seja, representa a pessoa inteira, expressa toda a realidade humana. Cada gesto representa o que somos inteiramente. Não vemos o individuo como uma coleção de traços (temperamento, desejo, emoção...), mas como uma unidade sintética. Dessa forma, o individuo não possui potências ocultas, revelando um aspecto de si de cada vez, enquanto as demais repousam. A realidade humana se anuncia pelos fins perseguidos (projeto). Não é o passado que determina quem somos, mas o futuro. Isso não quer dizer que a história não faça a sua contribuição, mas o peso é diferente do que em outras abordagens.  Ao homem cabe a plena consciência de sua livre escolha, consciência de sua responsabilidade e jamais ser visto como resultante de leis gerais. A sociedade humana é uma “anti-phisis”: ela não sofre passivamente a presença da Natureza,ela a retoma em mãos. Esta retomada de posse não é uma operação interior e subjetiva; efetua-se objetivamente através da práxis.
A Filosofia tinha posto o conhecimento como um fim e a razão como meio, construindo assim sistemas para chegar à essência das coisas. Isso levou à perda de contato com a existência mesma.   “a busca da essência não é se não um artifício dos homens que tratam de fugir da realidade, esquematizando-a; o pensamento não tem validade se não leva em conta quem o pensa”(Kierkegaard,1941)
O Existencialismo se propõe ao enfrentamento com o individual, irreptivel de cada ser, com sua existência. A famosa frase “A existência precede à essência, bem formulada por Sartre, expressa que o homem se faz a si mesmo. Sem duvida, Kierkegaard foi o pai desta idéia, mas sua obra pareceu perder-se, inicialmente; a ressonância do seu pensamento só apareceu após a primeira guerra. Heidegger ouviu o chamado e, de posse dos ensinamentos de Husserl sobre fenomenologia, construiu o existencialismo alemão. Mas ele também não teve seguidores imediatos. Após a segunda guerra, outro pensador influenciado por Husserl, segue os passos de Heidegger e traz uma nova contribuição: Jean-Paul Sartre. O Existencialismo não constitui  uma escola ,mas uma tendência a filosofar que se apresenta em diferentes lugares, através de diferentes homens: na Espanha, Unamuno e Ortega e Gasset; na Alemanha, Karl Jaspers; na França, Albert Camus e Gabriel Marcel; Buber e Berdiaeff, assim como outros, também foram deixando suas marcas.
Apresentado este panorama geral sobre a filosofia existencial, estamos prontos para examinar alguns de seus conceitos e método:
1.      Noção de Existência: núcleo básico do ser humano,o que realmente fica se lhe retiramos todos os contingentes. É o que fica como ultimo núcleo indefinível quando se tem prescindido de tudo que pode enumerar-se ou qualificar-se, uma vez que a existência cria tudo isso à medida do seu desenvolvimento.
2.      Liberdade: o Existencialismo parte da premissa de que os seres humanos não podem fugir à sua liberdade e que esta liberdade não é feita ao acaso, mas como uma escolha responsável. Por ela o homem escolhe o que quer ser e, assim, sua essência. O homem é o que se projeta ser e não existe antes deste projeto. Sartre denomina Projeto Original à escolha que a pessoa faz de si. “Liberdade é existência e nela a existência precede a essência” (Sartre,1943,p.433). O individuo se faz na medida em que  é feito pela situação e pelos acontecimentos. Ao mesmo tempo em que se define, é definido por outro e nessa mescla de passividade e atividade, precisa reinventar-se sempre.
3.      Consciência e transcendência: não sendo uma entidade, a existência  se constitui como uma relação constante consigo mesmo e com o mundo. Esta relação se caracteriza por sua transcendência. No latim, existire significa fora de, o que significa que existir é transcender-se. O existir humano é continua criação, um poder ser. O homem não está pronto,  precisa construir-se e este processo não é determinado por nada além dele mesmo. A consciência é definida como um vazio que se desliza para o objeto a que intencionalmente se dirige, na tentativa de se preencher. É uma visão relacional tendo em vista que a consciência não existe sem objeto, da mesma forma que o objeto não pode existir sem uma consciência (princípio da Intencionalidade de Husserl). A consciência é, então, mais um ato de captação do objeto nas formas de percepção, imaginação, emoção, etc. A amplitude desta captação indica que a consciência é sempre consciência do mundo. “O ego não está formalmente nem materialmente na consciência. Está no mundo- é um ser-do-mundo, como o ego do outro... É a consciência que torna possível a unidade e personalidade do meu eu. .. A existência da consciência é um absoluto porque a consciência é a consciência de si mesma... O objeto está frente à ela com sua opacidade característica, mas ela, ela é pura e simplesmente consciente de ser consciente desse objeto, tal a lei de sua existência.”( Sartre, 1936,p.22) Existe então a consciência irreflexiva,de primeiro grau,que é uma consciência  vaga, não posicional de si; e a consciência reflexiva, ou de segundo grau, que é a consciência de se ter consciência de algo.
4.      O ser-no-mundo: o homem não existe só, nem em relação exclusiva com sua corporeidade. Ele é um ser-no-mundo que cria o mundo, mas, ao mesmo tempo, é criado por ele. O mundo e o homem são, na verdade, um só; não poderiam existir à parte. O ser só existe na medida em que tem um mundo e vai criando este mundo na medida em que é consciente dele. O mundo é um conjunto de relações com os demais e com as coisas que se vão tecendo na vida de cada ser à medida que ele vai  desenvolvendo na existência sua concepção de mundo e de si mesmo: seu projeto de ser.
5.      A angustia e o nada: é um fato ontológico, uma característica do existente como tal. A angustia de liberdade conduz o individuo a procurar-se nas coisas, o que é uma maneira de fugir de si mesmo. Longe de ser considerado um sintoma patológico, trata-se de uma valiosa experiência já que, ao aparecer, nos faz conscientes de nossa existência e nos obriga a vivê-la como tal. É o medo de nada, já que diferente do medo, não tem um objeto especifico. Surge quando o nada irrompe e comove o nosso ser. O nada é o que determina a existência das coisas. Sartre nos diz: “O que conta em um recipiente é o seu vazio interno.” É o que não existe que determina a construção do que existirá.
6.      Culpa: também ontológica, aparece quando o individuo falha na realização de suas possibilidades, quando renuncia a sua liberdade e se aceita objeto.
7.      Método fenomenológico: método proposto por Husserl que se indignava com a utilização do método das ciências naturais aplicados a tudo, especialmente à Psicologia. Por meio da reflexão, podemos nos isolar do exterior e dirigir nossa atenção à nossa consciência. O foco não é o objeto externo, mas a vivência que temos dele, o ato mesmo pelo qual o percebemos e o conhecemos. Isso livra a percepção das limitações de perspectiva. O conhecimento é direto, intuitivo, sem necessidade de qualquer significação, já que o sujeito e o objeto são um só e o conhecimento se fixa no ato de conhecer. Mas para isso é necessário colocar entre parênteses tudo o que possa vir a interferir neste processo de captação; todo o nosso próprio estado psicológico. Chamou este processo de redução fenomenológica que extrai tudo o que é externo ao processo de vivência. Assim, conhecer absolutamente algo é ser capaz de captá-lo em todos os seus aspectos e características. O conhecimento comum capta apenas parcialmente, enviesadamente, enquanto que a forma proposta por Husserl  capta o próprio ato captador: a consciência do objeto. O que se investiga e quem investiga, sujeito e objeto são um só, pertencendo à mesma corrente de consciência e, portanto, podemos chegar a conhecer absolutamente. Se podemos chegar a conhecer absolutamente o ato de conhecer, podemos chegar ao conhecimento absoluto do objeto. Como método terapêutico, é uma forma de captação da realidade do cliente, tal como é vivida por ele, através do seu olhar. Na verdade, esse é o maior objetivo da terapia: a compreensão do mundo de cada sujeito, tal como ele o vivencia. Ajusta-se, pois, como um método que estuda o individuo como ser-no-mundo, como existente, e a captação do sentido do seu projeto de ser.



[1] Mestre em Psicologia, professora adjunta e supervisora clinica do Departamento de Psicologia da PUC-RJ. Psicoterapeuta, desenvolveu a Psicoterapia Vivencial, abordagem existencial sartriana ; autora de vários artigos e livros publicados dentro e fora do pais.