quinta-feira, 16 de março de 2017

NEM TODA ESCOLHA É SÁBIA

Quem já não ouviu essas frases: “viver é fazer escolhas” ou “a vida é feita de escolhas.” São frases que soam como um clichê, mas que no fundo trazem um quê de concretude na vida. Digo, são frases que corroboram para a nossa condição diante da vida e das circunstâncias. Por conta disso, a todo o momento somos confrontados com situações que muitas vezes não sabemos qual caminho tomar e pior, podemos cair na teia da ilusão que tudo vai se ajeitar com o passar do tempo: o tempo passa e nada se modifica. 
Se partirmos da premissa de que não podemos deixar de escolher, então como poderíamos fazer uma escolha correta. Espera aí!  Escolha correta?! Não existem escolhas corretas. O que existem são escolhas. Como poderíamos saber de antemão se uma escolha é correta ou não? Não podemos, pois precisamos vivenciar tal escolha para dizer se foi benéfica ou não, ou seja, é apenas pela vivência que poderemos chegar numa conclusão da nossa escolha. Diante disso, podemos pensar que toda escolha tem um motivo de ser, uma intencionalidade, como diria o filósofo Edmund Husserl. Mas e no caso de uma pessoa escolher um caminho considerado tortuoso ou complicado? Como por exemplo, usar drogas. Não seria uma escolha errada? Não digo errada, mas sim uma escolha diante de situações que essa pessoa não está dando conta e que ela não está sabendo como lidar. A sua alternativa é uma escolha para tentar sobreviver frente às dificuldades que ela mesma não está conseguindo suportar. E ela não está fazendo isso de maldade, mas pelo motivo dela não saber o quê fazer no momento. Diríamos que seja uma espécie de escolha contra si mesma. E claro, pra quem olha de fora, é fácil rotular essa atitude como sendo de uma pessoa fraca e que não consegue lidar com situações adversas. E não é o caso, ela está tentando, só que a sua escolha não é a mais sábia do mundo, mas, mesmo assim, ela não deixa de ser uma escolha.
O que ela está dizendo é: estou tentando sobreviver nesse mundo tão complicado e que não estou sabendo como fazê-lo. Em suma: ela está pedindo ajuda e não uma nosologia ou rótulo. Sua escolha é uma tentativa de manter-se viva, presente na vida, só que o preço dessa escolha é caro demais. Ela escolhe o que pode no momento ou o que ela considera como suportável. E nesse caso, o problema em si se torna algo secundário, o foco passa a ser a pessoa na relação com um problema e que acaba afetando na sua escolha: se ela escolhe dormir em excesso, por exemplo, é uma escolha pela dificuldade de lidar com algo no mundo desperto ou acordado.

Então, qual seria a escolha já que não existe uma escolha correta? Devemos escolher a nós mesmos. Quando digo isso, refiro-me a escolha pela nossa percepção de como fazemos, como atuamos, ou seja, qual o motivo deu fugir de certas situações ou confrontos. Na realidade, não fugimos das situações, nós fugimos de nós mesmos, das nossas dificuldades e de encará-las de frente. É mais fácil dizer que somos assim mesmo ou já nascemos pré-dispostos para tal comportamento: se estou pronto ou definido, não preciso fazer nada para mudar. Afinal de contas, sou algo pronto, com função previamente estabelecida. E convenhamos, todo se humano não está pronto ou acabado, mas sim em construção, em abertura para a vida. Por isso, cabe a ele compreender sua dificuldade que leva à sua escolha como uma tentativa de burlar a si mesmo. Lembrando que essa compreensão ainda não se configura como uma mudança, uma vez que a pessoa pode compreender e escolher manter-se alheia de si mesma, ou seja, ela reconhece onde precisa mudar, mas tem dificuldade para fazê-lo. E isso deve ser trabalhado. Portanto, um bom caminho é a compreensão, mas uma escolha saudável é a ação diante da sua própria dificuldade. É a ação – que é uma escolha – que modifica sua postura perante a vida e, principalmente, a si mesmo.  

sábado, 2 de julho de 2016

 Mais uma vez... e mais uma vez...

            Muitas pessoas expressam o desejo de mudança na vida. Vida que talvez esteja numa mesmice ou mesmo sem nenhum sentido. Daí a tal vontade de mudar alguma coisa, mas, em muitos casos, sem saber exatamente o porquê e o quê mudar. Mas, mesmo assim, elas carregam uma aparente convicção: a vida como está, não está valendo à pena. Algo precisa ser feito. Mas o ponto é: o quê?
            Por outro lado, esse ávido desejo pela mudança do ‘sei lá o quê’, carrega implicitamente o término do já conhecido e a entrada no desconhecido ou o novo. Eis aqui instalado o dilema existencial: abandonar o conhecido, o que de certa maneira está dominado (mesmo sendo este ruim) e que não precisamos despender nenhum suor, pois, este, está consumado, pronto ou ariscar todas as fichas numa nova senda? Esta desconhecida, sem controle e que nos convida para vivenciarmos o que ainda não sabemos se vai dar certo ou não. Difícil, não é? O que seria mais difícil então: abrir mão do conhecido ou entrar no desconhecido? Dar adeus ao velho ou dar às boas-vindas ao novo? Se partirmos do pressuposto que todo ser humano busca por certa adaptação, certo hábito e por que não dizer ritual na sua vida, então abrir mão do conhecido é muito mais complicado do que ariscar-se no desconhecido, até porque o desconhecido ele ainda não conhece, por isso do nome. Ele até pode imaginar uma situação hipotética, mas ele não tem nenhuma garantia se de fato vai acontecer mesmo ou não. E por conta disso, o novo ou desconhecido perderia sua função. Afinal de contas, ele está lá adiante, longe de onde estamos e qualquer coisa que possamos imaginar ou desejar relacionado a ele, é uma mera especulação.
            Bom, parece que chegamos numa posição: o conhecido é mais difícil de ser abandonado do que a entrada no desconhecido. Mas espere! Não devemos ir tão depressa assim, pois agora uma nova questão emerge: como podemos abandonar o que já conhecemos? Melhor dizendo: como podemos abandonar quem supostamente já “conhecemos”? Esta talvez seja a maior dificuldade: acreditamos que somos nossos hábitos ou o que já “conhecemos” de nós mesmos. A possibilidade de abrirmos mão de quem somos causa um grande incômodo e medo. Algumas pessoas podem até pensar: é melhor ficarmos na posição que já conhecemos, pois temos o controle de nós mesmos e assim não nos sentiríamos ameaçados. Contudo, só podemos efetuar uma mudança quando abandonamos àquilo que não serve mais, que não cabe mais em nós mesmos, ou seja, o que já conhecemos. Devemos deixá-lo partir, pois, do contrário, não abriremos a possibilidade do desconhecido. Se temos que fazê-lo, então por que é tão difícil? Porque estaríamos nos perdendo de nós mesmos. Estaríamos entrando em contato com o vazio que habita em nós. Estaríamos entrando em contato com o nosso próprio abandono, entenda isso como despedindo-nos dos nossos hábitos e comportamentos. Só tem um detalhe: não somos os nossos hábitos ou comportamentos. Somos os seus construtores, mas não precisamos nos colocar à mercê das nossas construções. Na realidade, somos um vir-a-ser em busca de uma construção que deve ser feita e vista como temporária ou atemporal. Daí não precisar chegar a algum lugar ou num porto seguro. Basta reconhecermos nossa condição de seres em constante construção, por se fazer. A (re) construção é o sentido do ser. Portanto, diga adeus para o velho, para o já “conhecido”, mesmo que com medo, mesmo que trêmulo, pois, qualquer mudança que queiras fazer, só poderás fazê-la com o consentimento da sua própria morte. Morte aqui representada não de forma literal, mas no sentido similar ao mito da Fênix: aquele pássaro que percebendo a iminência da sua própria morte se consome em chamas para então renascer das próprias cinzas. Que possamos – assim como a Fênix - consumir-nos nas nossas próprias construções para renascermos numa nova condição, numa nova roupagem. E que assim seja. Mais uma vez... e mais uma vez...




quinta-feira, 3 de setembro de 2015

“Recriar” ou “Rever”?


            A inspiração para escrever este pequeno texto veio de um querido amigo que respondendo – de maneira bem humorada – uma colocação minha quanto à proposta da psicologia, levantou o seguinte questionamento: “a psicologia serve para que a pessoa recrie sua vida ou para ela rever a mesma”? Naquele momento respondi de chofre que a psicologia serve para que a pessoa recrie sua vida, pois, não sendo assim, para quê a pessoa procuraria um psicólogo? Rever o passado para ter uma explicação plausível do seu momento presente?! Bem, gostaria de ampliar um pouco melhor minha resposta dada para meu grande amigo. É claro que todo ser humano carrega sua história, não há como negá-la. Aliás, ele não só carrega o passado, mas também a possibilidade do porvir e, principalmente, o momento presente. Este, no meu entender, o momento mais importante e produtivo, pois é apenas no instante presente que o ser humano pode efetivamente fazer alguma. O passado assim serve como um álbum das suas vivências e o futuro uma abertura que pode ou não se concretizar. Então rever o passado não teria nenhuma importância? Não é bem assim. Como disse antes, o ser humano é um ser histórico e por conta dessa historicidade que ele se reconhece como um ser atuante no mundo. Rever o passado não é o problema. A questão é como ocorre essa revisão, uma vez que pessoa pode valorizar suas conquistas alcançadas ou petrificar-se na lamúria dos feitos não realizados. De qualquer maneira, é a própria pessoa quem escolhe como vai vivenciar o seu passado. Passado este – diga-se de passagem - sempre vivenciado no instante presente. E é neste aspecto que o “rever” pode contribuir para um “recriar”, ou seja, o sentimento presente no contato com as reminiscências passadas abre a possibilidade para uma nova visada, e nessa abertura que a pessoa pode escolher “recriar” sua história. Não estou falando aqui em mudança do passado, não se pode mudá-lo, mas sim mudança da própria pessoa no presente: o sentimento expresso pela vivência da situação passada servirá para ela repensar o seu momento presente. Em outras palavras, é por intermédio desse sentimento expresso no aqui e agora que a pessoa poderá alcançar uma melhor compreensão de si mesma. Compreensão esta que abre a possibilidade para ela recria-se a si mesma. Portanto, um “recriar” a partir de um “rever”, mas, acima de tudo, um “recriar” a partir da liberdade que ela é. Um re-criar a partir da sua própria escolha (ação). Um grande abraço...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A terapia realmente ajuda?

            Afinal de contas, fazer terapia traz algum benefício para pessoa? Quantas pessoas já se fizeram essa pergunta antes de procurá-la. Aliás, a pergunta é deveras pertinente, visto que a pessoa que busca pela primeira vez a terapia, não sabe o que de fato pode ou não mudar na sua vida. Na grande maioria dos casos, a procura ocorre por uma situação específica: perda, dificuldade no relacionamento amoroso, medo, dentre outras. O certo é que alguma coisa aconteceu, fez com que a pessoa fosse buscar uma ajuda. Em outras palavras, ela não está sabendo como lidar com tal situação. Ela não está conseguindo entrar em contato consigo mesma. A vida parece que perdeu o sentido ou algo do gênero, daí sua procura por uma terapia. Mas que tipo de ajuda ela pode ter? E como ela pode reconhecer seus benefícios?
            Iniciar um processo terapêutico muitas vezes não é nada fácil. Ainda mais que a pessoa vai dividir seus problemas com outra pessoa até então desconhecida. E tal situação pode colocar em xeque o início da terapia, uma vez que se torna importante para a pessoa sentir-se acolhida pelo terapeuta. Por outro lado, cabe ao terapeuta aceitá-la nas suas dificuldades para que a própria pessoa também aceite a si mesma. Desta maneira, ela poderá entrar em contato mais direto consigo mesma. Não se trata de interpretação, mas sim de compreensão através da presença do terapeuta. Este “espelha” para a pessoa às emoções e os sentimentos captados na sua fala. É a própria pessoa quem vai compreender-se ao longo das sessões.

            Então a terapia pode ajudar? Claro que pode. Só tem um detalhe importante: não basta a pessoa compreender-se a si mesma e tudo muda. Terapia não é passe de mágica! A compreensão é o primeiro passo para uma possível mudança. Digo possível pelo simples fato de que qualquer compreensão que seja ainda não se configura como uma mudança, até porque a pessoa mesmo se compreendendo pode escolher manter sua conduta já conhecida. Torna-se então necessário o contato com o risco, pois, dessa maneira, ela poderá criar sua própria vivência. Vivência esta que amplia uma maior compreensão ao próprio respeito, ou seja: a cada situação que escolhe vivenciar, poderá, de fato, reconhecer-se no seu modo de ser. Assim, a experiência concreta passa a fazer parte da sua vida e o risco que antes era visto como uma ameaça, agora é aceito como condição para o seu desenvolvimento emocional. Portanto, a terapia pode ajudar, mas, antes de tudo, é preciso que a pessoa escolha se ajudar. É preciso AGIR para que seus benefícios sejam reconhecidos. Um forte abraço... 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Atendimento social em Albuquerque, Teresópolis-RJ. Pacote fechado por mês( quatro sessões). Para maiores informações entrar em contato:
Celular: (21)996356855 (vivo)
E-mail: solram@ig.com.br
Whatsapp: +55 21  996356855. 

domingo, 19 de outubro de 2014

O tempo não escolhe

     Hoje gostaria de falar sobre o tempo. Tempo que nos carrega desde nosso nascimento mesmo que nem saibamos. Sua presença é a nossa própria existência. Tempo que ficou para trás, no passado. Onde transportamo-nos em lembranças que nos convidam a rir ou a chorar - é a nossa história de vida. Tempo que nem temos ainda, mas que pela nossa imaginação podemos criá-lo. É aquele tempo que vislumbramos aspirações e projetos. É o que ainda não é: o futuro. E temos o tempo que considero como o mais precioso e que de certa maneira escorre por entre nossos dedos, ou seja: o momento. Momento que sempre nos convida para fazermos algo. Momento onde sempre estamos, mas que na maioria das vezes desdenhamos, pois acreditamos que ainda teremos uma nova chance no porvir. A questão é: será que teremos? E é exatamente sobre este tempo que gostaria de falar.
    Você já se deu conta que nunca estamos onde de fato devemos estar? Não estou me referindo a um lugar específico, não é isso, mas sim a nossa presença no momento. E parece tão complicado fazermos isso, pois freneticamente voltamos ao passado numa tentativa de lembrar os “bons tempos”, situações agradáveis que vivenciamos ou pessoas interessantes que passaram pela nossa vida. Quiçá isso não nos preencha, e lá vamos nós então para o futuro. Projetamos possibilidades que podem ou não se concretizar, uma vez que o porvir tem essa peculiaridade, qual seja: não haver garantias. Se o passado é um mero registro histórico inalterável e o futuro é uma abertura, uma possibilidade, então não há nada atrás ou na frente, somente o momento. Nele que efetivamente podemos e devemos fazer alguma coisa, já que a nossa atitude concreta só pode ocorrer no momento. E convenhamos, não reunimos condições para mudar o que já aconteceu e tampouco podemos controlar o que pode acontecer no porvir. Logo, só temos o agora e nada mais.
    Mas se de fato vivemos a eternidade do momento, pra quê fugirmos dele? Interessante que este questionamento me fez lembrar um trecho do livro Assim falou Zaratustra, do filósofo alemão Nietzsche e que pode nos ajudar neste aspecto. Refere-se ao diálogo de Zaratustra com o anão. Para quem não sabe, o filósofo criou este personagem na sua proposta filosófica: uma espécie de sábio que deseja trazer mais conhecimento para humanidade. Bem, Zaratustra questiona o anão acerca do tempo, em particular ao momento. O diálogo se desenrola – mais ou menos nesses termos – com Zaratustra perguntando ao anão: você vê anão, este pórtico com a inscrição: momento? E ele continua: você acha que se formos para trás ou adiante, eles irão se contradizer? O anão diante da sua ignorância não consegue responder, pois ele não percebe o ciclo do tempo. Para ele, o tempo é linear: passado, presente e futuro seriam fixos. A provocação de Zaratustra é que o anão perceba que o único tempo que existe é o instante, o momento e que a nossa pretensão de voltarmos ao passado ou irmos ao futuro sempre nos colocará no lugar onde sempre estamos: aqui. Haja vista que quando lembramos o nosso passado, estamos lembrando no aqui e agora, e quando imaginamos o nosso futuro, imaginamos também no instante presente. A proposta nietzschiana é deveras interessante e parece não só colocar o anão numa ‘sinuca de bico’, mas a cada um de nós. E qual seria essa ‘sinuca’? Que o único tempo que temos está aqui, diante de nós, de graça e que por conta disso, devemos fazer alguma coisa nele. Devemos dar sentido à nossa vida, pois, a cada momento que deixamos de fazê-lo, estamos assassinando nossa existência. Estamos deixando de criar vida. Estamos perdendo literalmente o único tempo que temos. Sendo assim, pensemos a respeito para depois não reclamarmos que o nosso tempo já passou ou que não temos mais tempo para fazer alguma coisa. Pensemos a respeito, pois o tempo não faz nada; o tempo não escolhe. Nós quem escolhemos e sempre vamos continuar escolhendo. Afinal de contas, somos o nosso próprio tempo. Somos a eternidade do momento. Somos o que escolhemos ser. Um grande abraço...

P.S: Dedico este texto para uma mulher que sabe assumir o seu tempo acima de tudo. Refiro-me à Chames Salles Rolim, 97 anos, que no ano de 2014 concluiu a sua faculdade de Direito em Ipatinga, interior de Minas Gerais.

terça-feira, 11 de março de 2014

 ‘ Dança das cadeiras’

   Querido leitor (a), a inspiração para escrever este texto surgiu primeiramente no ano passado, quando na época estava ouvindo um programa na rádio. Este abordava sobre o posicionamento do homem e da ‘nova’ mulher na relação de casal nos dias de hoje. O programa falava principalmente da tomada de decisão da mulher para conquistar seu espaço. Tomada esta que fez a mulher ficar em ‘pé de igualdade’ com o homem – se é que posso dizer assim, pois a nossa sociedade continua sendo machista mesmo com um discurso tido como democrático. Bem, falarei sobre isso depois. A questão é que, mesmo aos ‘trancos e barrancos’, a mulher foi conquistando seu espaço. Tanto que, sua presença não é mais surpresa em diversos seguimentos sociais – haja vista nossa presidenta - que antes só poderiam ser ocupados pelos homens. E aqui, eu já lanço as primeiras questões: a mulher teria conquistado seu espaço ou estaria se sobrecarregando em diversas tarefas (dentro e fora de casa)? E até que ponto tais conquistas afetam, hoje, numa relação de casal? Esta pergunta talvez faça o homem tremer nos seus alicerces, pois... onde ele está? Quem sabe, descansando no ‘berço esplêndido’ das antigas normas sociais. Talvez.
   A outra inspiração veio a partir de uma conversa com uma amiga, numa festa. Falávamos, melhor dizendo, ela falava da dificuldade de alguns homens (ainda bem que nem todos) se relacionarem com essa ‘nova mulher’. Afinal de contas, a mulher, hoje, não precisa ficar à mercê do homem como acontecia outrora, ou seja: quando ela ficava subjugada às normas e regras impostas por um social caracteristicamente machista. Por outro lado, o homem nem precisava lutar por nada, pois o seu espaço já se encontrava pré-determinado: o provedor da família. E hoje? Qual a posição dele? Parece que ele ficou ‘ sem pai e nem mãe’ nessa ciranda. Seu espaço foi sucumbido, já que muitas mulheres tornaram-se mantenedoras das suas respectivas famílias. E o homem? ‘Assistindo de camarote’? Alguns até estão – a priori – correndo atrás ou pelo menos tentando: cuidam da casa, da educação dos filhos e até estão mais preocupados com a própria estética (atribuição esta que era anteriormente exclusividade da mulher). A impressão que temos, é que o homem está buscando um novo posicionamento, ‘correndo atrás’, ‘ralando’ para alcançar seu espaço que ficou aberto. E aberto, diga-se de passagem, pelo próprio desejo da mulher em conquistar o seu próprio espaço. A dúvida que persiste é: seria uma conquista ou acúmulo de atribuições? Quanto ao homem, parece que está num labirinto sem saber exatamente quem ele é e muito menos se vai encontrar uma saída.
   Diante dessa ‘dança das cadeiras’, onde os espaços não podem ser mais guardados, homens e mulheres, ou melhor, seres humanos - os relacionamentos não se restringem apenas às relações homem/mulher - estão passando por uma espécie de ‘retorno de Saturno’, no qual transformações são iminentes e necessárias. E como toda transformação não passa em vão, ou seja: sofremos pela própria mudança até de fato fazê-la, haja vista que saímos de algo conhecido para adentrarmos no desconhecido. O que os seres humanos estão construindo? Mulheres reclamam que estão sobrecarregadas (trabalham dentro e fora de casa). Seria o preço da emancipação? Ou o homem não quer abrir mão da sua posição antes determinada? Enquanto isso, os homens reclamam que as mulheres agora são autossuficientes, que elas não precisam mais de um homem ao seu lado. Será?! Penso que não é bem assim. Elas querem sim! Mas querem um companheiro ao seu lado. E aí precisamos (homens e mulheres) superar-nos a nós mesmos. Algo similar à proposta nietzschiana do Übermensch ou o super-homem: criar uma nova ordem, uma nova lei e com isso quebrar os grilhões de condutas engessadas como: ‘o homem faz isso e a mulher faz aquilo’. No meu modo de ver, não há demérito algum nas conquistas das mulheres e muito menos na busca do homem por um novo homem. Lembremos que nessa ‘dança das cadeiras’ o mais importante não é quem vai ficar sentado e sair vencedor, até porque o vencedor (a) ficará sozinho sentado numa cadeira, mas sim que devemos reconhecer nossas possibilidades para versatilidade (fugirmos da normatização: o que é atribuição de homem e o que é atribuição de mulher) e passarmos a estar com este outro pelo simples desejo de trocar, de amar e ser amado. E que para tal, não precisamos estipular atribuições prévias. Precisamos sim, nos colocarmos como companheiros. Companheiros na acepção da palavra: “aquele que acompanha”, “aquele que tem solidariedade”. Portanto, o que importa não é o papel do homem e da mulher dentro de uma relação de casal, mas sim a cumplicidade que ambos podem construir. Utopia? Pode ser, mas não custa tentar. E talvez o grande desafio esteja nas mãos do homem, uma vez que ele ainda vive sob a égide de uma sociedade machista. Será então que ‘o feitiço virou contra o próprio feiticeiro?’ Um grande abraço...



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Encontros e desencontros

      A busca por um grande amor é algo desejado pela grande maioria das pessoas – arrisco até dizer que todas. A procura pela propalada ‘cara metade’ ou daquela pessoa que ‘vai me completar’, torna-se um imperativo para felicidade. Quem não quer amar e ser correspondido, não é mesmo? Contudo, tal busca pode trazer certas armadilhas, principalmente, quando se coloca o outro como ‘tábua de salvação’. Como se este outro fosse aparecer e transformar à vida daquela pessoa, como num conto de fadas ou nas novelas de televisão: ‘ele (a) me fará feliz’, é o que muitos pensam. Seria isso condenação ou amor? Qual alternativa você escolheria? Não sei não, mas acho que está mais fadado para a condenação. E por quê? Pelo simples motivo – se é que posso dizer assim – que ninguém pode fazer pelo outro aquilo que a própria pessoa deve e tem a obrigação de fazer por si mesma, ou seja: ela é quem deve construir a sua própria felicidade. Mas então não existe relação amorosa? As pessoas não precisam se relacionar? É isso mesmo?! Não, não é isso que estou dizendo. Quando me refiro à relação amorosa, falo daquela relação em que ambos sabem quem são. Eles não precisam depender do outro ou permitir que este outro seja dependente emocionalmente dele. Escolhem ficar juntos porque assim desejam, pois não há o que buscar no outro e vice-versa. Basta somente estar presente e... curtir.
     A questão sine qua non no meu entender, é que algumas pessoas (nem todas) desconhecem a si mesmas. Sentem pânico só em pensar na possibilidade da solidão. Como se a solidão fosse uma doença que deve ser erradicada. E convenhamos, não é bem assim. A solidão é algo necessário, assim quando escolhemos estar com o outro e não precisar ficar com este outro. Percebeu a diferença? Disse escolhemos que é diferente de precisarmos. A escolha remete a uma avaliação reflexiva e seletiva. ‘Desejo ficar com essa pessoa por isso e por isso’. Em se tratando do precisar, a pessoa parece ávida para não ficar sozinha. Não importa quem está ao seu lado, mas sim que ela não pode ficar só, pois, do contrário, o convívio ficaria insuportável. São aquelas pessoas que escolhem viver à vida do outro para não entrar em contato com a própria vida. Torna-se menos pesado relacionar-se com a vida do outro do que com a própria, não parece?!
       Quero dizer-lhe que há certa confusão quando se fala de solidão. A maioria já pensa a solidão como um isolamento, como se a pessoa fosse se refugiar no Himalaia para meditar, não é o caso. A solidão a qual me refiro não se trata de isolamento ou fuga, mas sim da pessoa estar conectada com ela mesma, com seus próprios pensamentos. Sendo assim, cada um de nós pode vivenciar à própria solidão e estar, ao mesmo tempo, ao lado de alguém. E nesse caso, a solidão torna-se importante para quem escolhe vivenciá-la, uma vez que entramos em contato conosco, com os nossos sentimentos e desejos. Seria uma espécie de monólogo interior, um diálogo íntimo com a própria alma, uma busca por uma melhor compreensão ao próprio respeito e mais, um reconhecimento da própria individualidade. Individualidade esta que pode se ‘dar ao luxo’ de encontrar com outra individualidade, pois não há ameaças ou desejo de ‘adquirir’ algo do outro. Mas, infelizmente, muitos não percebem assim, não conseguem perceber o outro como indivíduo que também ele é. Aliás, é compreensível, pois como a pessoa não consegue se perceber, também não poderá perceber o outro, não é verdade. Fica uma mistura, um ‘balaio de gatos’, a pessoa não consegue distinguir o que é dela e o que é do outro (ou seria quem é ela e quem é o outro?). E tem diferença? Penso que não. E pior ainda, o outro precisa salvá-la (o). Precisa deixá-la (o) feliz. Utopia! Pois cada um tem o dever de buscar melhorar-se como pessoa. É claro que a pessoa pode trocar com o outro, isso não quer dizer precisar do outro. A troca só pode acontecer quando temos algo para falar de nós mesmos e não quando esperamos que o outro diga qual caminho devemos seguir. Lembremos que este outro não é guru ou mentor espiritual, mas companheiro (a), parceiro (a), pelo menos deveria ser.
     Portanto, queridos amigos, pensemos na solidão como construção da nossa própria individualidade e não como isolamento. Pensemos primeiramente em encontrar conosco para aí sim poder estar com o outro. Como estar com o outro se não nos propomos a estar conosco? Como desejar estar com o outro se não desejamos ficar conosco? Como buscar primeiro pelo outro sem antes fazermos a busca por nós mesmos? Parece que algumas pessoas estão querendo ‘colocar a carroça na frente dos bois’. E elas ainda não escolhem serem os próprios condutores, é o outro quem tem essa responsabilidade (Como podem delegar o que é de sua própria responsabilidade?). Mas parece que há uma estratégia por parte delas: se der errado não seria culpa dela, mas sim do outro. Quanta irresponsabilidade, não é mesmo? Pensemos então que devemos primeiro encontrar conosco para depois encontrar com o outro, pois, do contrário, teremos grande chance de transformar nosso encontro (com outro) em um grande desencontro (conosco). Façamos alguma coisa... de preferência primeiramente com nós mesmos. Abraços...

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

  
Novas sugestões de leitura

BOFF, Leonardo. A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. O autor confronta às duas dimensões da existência humana: a galinha, simbolizando a limitação, o enraizamento, o cotidiano e a águia, como simbolismo da abertura, do ilimitado, da superação. A questão é: como equilibrar esses dois pólos em nossa existência.

BOFF, Leonardo. O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade – Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. Trata-se do prolongamento das ideias do seu livro anterior A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. Apresenta como no mundo, no social e na vida pessoal há um jogo de forças: caos e cosmos, sim-bólico e dia-bólico, da dimensão-galinha e da dimensão águia. Para adentramos na nova fase da humanidade precisamos despertar a águia.

CORTELLA, Mario Sergio. Não nascemos prontos! : Provocações filosóficas. 12. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011. O filósofo e teólogo, Mario Sergio Cortella, propõe através de pensatas sobre os riscos que corremos de cairmos numa monotonia existencial, numa mesmice afetiva e na ignorância intelectual.

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Trilogia da existência: teoria e prática da psicoterapia vivencial – 1. Ed. – Curitiba: Appris, 2013. Tem-se a reunião dos três livros de Tereza Erthal sobre ser, sua existência e o desenvolvimento para uma mudança em terapia. A autora versa acerca dos fundamentos básicos da Psicoterapia Vivencial (terapia apoiada em Sartre), seu método, técnicas e modelos de atendimento. No final, casos clínicos são apresentados para demonstrar como ocorre a dinâmica entre a teoria e a prática.

FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. A escuta e a fala em psicoterapia: uma proposta fenomenológico-existencial – São Paulo: Vetor, 2000. Trata-se da reflexão da autora e expressão do seu engajamento na difusão de pensadores como Edmund Husserl, Sören Kierkegaard e Martin Heidegger dentro do contexto da psicologia clínica e que foi inicialmente sua tese de doutorado defendida no curso de Pós-Graduação em Psicologia do Instituto de Psicologia da UFRJ.

HYCNER, Richard. De pessoa a pessoa: psicoterapia dialógica. – São Paulo: Summus, 1995. Este livro traz de maneira clara e sistemática muitos dos elementos básicos da psicoterapia dialógica: o “entre”, a “cura através do encontro” a “problemática da mutualidade”, a confirmação e a exclusão. Agrega também todos estes elementos nas relações EU-TU e EU-ISSO, de Martin Buber, bem como seu ensinamento hassídico de “reverenciar o cotidiano”. Incorpora, simultaneamente, a ênfase no aqui e agora e no desenvolvimento do self, elementos caros à Gestalt-terapia, ao Zen e à Psicologia Transpessoal.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O nascimento da tragédia ou Helenismo e pessimismo; tradução, notas e posfácio J. Guinsburg. – São Paulo: Companhia das Letras, 1992. Este foi o primeiro livro do filósofo que foi publicado em 1872. Ele oferece não apenas só uma interpretação da tragédia, mas da própria cultura grega, do nexo entre a arte e conhecimento e da época moderna. A arte proposta pelo pensador contribui para adensar uma “tênue membrana de alegria e vida sobre o imenso escuro horror”.

YALOM, Irvin D. Quando Nietzsche Chorou. Tradução de Ivo Korytowski – Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. Trata-se de uma ficção. O encontro dos personagens: o doutor Josef Breuer, o filósofo Friedrich Nietzsche e o jovem médico Sigmund Freud. O que ocorre, é que se estabelece entre eles uma relação na qual as funções de médico e paciente entram em conflito, pois Breuer consegue encontrar na filosofia de Nietzsche respostas para as suas próprias dores existenciais. Tal ficção deu origem ao filme de mesmo nome.




terça-feira, 17 de dezembro de 2013


                          Devemos reconstruir nossa existência                         
 

            Gostaria de falar sobre reconstrução. Reconstrução que nos remete a ideia de que precisamos construir novamente, pois o que antes servia para o nosso propósito, agora, deixou de ter sentido. Aquele lugar que outrora era tão confortável tornou-se estranho, como se ele não pertencesse mais ao nosso ser ou talvez seja o nosso ser que não queria mais fazer parte dele. Mas afinal, que lugar é este? O lugar no qual me refiro, não é concreto; não é feito de tijolos e muito menos possui portas ou janelas. Refiro-me aqui ao Ethos, a morada que cada um de nós habita: nossa própria existência. Existência que é expressa por uma consciência e que necessita de um corpo para existir, haja vista que não existe consciência sem um corpo para habitá-lo, assim como o corpo precisa de uma consciência para existir no mundo. Diante disso, estamos condenados a conviver com a nossa própria morada, com a nossa própria existência. Não podemos escapar de nós mesmos: esta é a sina que carregamos.

Se não há a menor possibilidade de encontrarmos um atalho, um escape que seja de nós mesmos, então parece que só nos resta aceitarmos nosso próprio convívio, quem somos. Mas um momento! Quem somos?  O que nos define? Filósofos da antiguidade já haviam tentado buscar uma resposta para tal enigma, algo que revelasse nossa unidade, nossa essência. E nessa busca dois filósofos se destacaram: Heráclito e Parmênides. O primeiro propõe o ser humano como um vir-a-ser, ou seja: em constante mudança. Uma vez que com o passar do tempo, a maneira dele perceber as coisas e situações se modificaria. A cada nova visada ele estaria transformando não só os fenômenos percebidos, mas, principalmente, a si próprio. Já o segundo estabelece o ser humano como permanência: ele é e não se modifica, pois ele nasce humano e morre humano. Sua essência já estaria definida de antemão, não havendo assim o que modificar. Divergências filosóficas à parte, ambos parecem ter certa razão: somos humanos e não vamos deixar de sê-lo, e nos modificamos quando transformamos nossa maneira ver o mundo. Então, já que não temos condições de abandonar nossa condição humana - a não ser por um projeto de morte -, pensemos em nosso projeto em vida: a possibilidade de transformação.

Transformação aqui proposta não como um destino ou como uma contingência da vida, mas como atitude da nossa própria práxis, da nossa própria consciência enquanto direcionada para nós mesmos: refletir como somos e para onde escolhemos seguir. Não que com isso devemos dar de ombros para a nossa história de vida, não é o caso. Ela até certo ponto foi necessária para nossa construção. Digo até certo ponto porque não precisamos ficar estacionados na mesma história, temos o dever de assumir o comando da nossa própria história, escolher como queremos ser e para onde ir. E só conseguiremos tal façanha pelo nosso próprio ato reflexivo, pela nossa consciência. É através dela que criamos condições para alcançar uma melhor compreensão de nós mesmos. Compreensão que não deve ser vista como sinônimo de mudança, longe disso. Até porque qualquer mudança realizada sempre precederá de uma ação, pois não há mudança sem que não haja escolha anteriormente. Para mudarmos, precisamos mais do que o desejo pela própria mudança. Precisamos agir com coragem para conseguirmos nosso intuito. E quando fazemos isso, transformamo-nos em heróis de nós mesmos, destruímos – mesmo que temporariamente – o nosso vilão interno para vencermos a nós mesmos. E talvez esta seja a verdadeira batalha que devemos travar: a reconstrução da nossa própria existência. Uma reconstrução solitária, tácita, mas que acima de tudo é necessária para o nosso desenvolvimento. Pensemos nisso e façamos a nossa escolha...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A essência como uma escolha

            O ser humano caracteriza-se por ser um animal curioso, que sempre busca conhecer e explicar tudo aquilo com que ele se relaciona. E é neste aspecto que ele se diferencia dos outros animais: a capacidade para dar sentido à própria existência. Sentido este expresso por escolhas realizadas – através da consciência reflexiva - que vão revelar ao mesmo tempo quem ele é, ou seja: sua essência. A cada escolha realizada, ele está escolhendo seu próprio ser. Daí todo ser humano ser consciente da própria escolha efetuada.
            Por outro lado, a curiosidade humana que tudo visa uma explicação pode incorrer num equívoco contra a própria espécie, qual seja: definir a condição humana. Definição que muitas vezes pode ser comparada a um objeto e a sua essência. Um objeto que seja foi idealizado por um artífice. Este partiu de um conceito ou ideia para sua construção, como por exemplo: uma cadeira. Sua finalidade ou essência já se encontra de antemão definida, pois, tal objeto, não pode escolher e nem modificar sua essência de cadeira. Será que o ser humano se encaixaria neste mesmo caso? Digo, ele já nasceria com uma essência pré-determinada sem ter a possibilidade de modificá-la? Se partirmos do pressuposto que a subjetividade humana não foi idealizada por nenhum artífice antes de vir ao mundo, mas sim que ela é desenvolvida a partir da relação sujeito/mundo, então não há como concebermos uma definição de qualquer ser humano, tampouco de sua essência. E por quê? Porque só quando o ser humano vem ao mundo é que ele tem a possibilidade de construir sua essência, pois, primeiro, ele deve existir para depois construir sua essência, uma vez que antes disso, ele é um nada, não existe. Se ele já trouxesse uma definição previamente elaborada – como alguns consideram –, não precisaria escolher qual atitude tomar, bastaria apenas que ele tivesse uma atuação em consonância com sua essência já estabelecida. Mal comparando: como se a pessoa possuísse uma essência de cadeira e funcionasse como tal.
            Mas ainda bem que a subjetividade humana não é um objeto, não é mesmo?! Ela é na realidade uma abertura perante o mundo e a si mesma. Perante o mundo: no sentido de que toda consciência precisa de um mundo para intencioná-lo, assim como o mundo necessita ser desvelado por uma consciência (postulado fenomenológico). A consciência desta feita está no mundo e não existe fora dele, pois, se assim fosse, a consciência seria um nada; não existiria e muito menos teria o que intencionar. E consciente de si mesmo: a pessoa pode transcender o fenômeno vivenciado para buscar uma compreensão da própria atitude. É a capacidade que ela tem para refletir o próprio ato, ou seja: num primeiro momento ela se encontra imersa na própria experiência (consciência irreflexiva); produz um determinado comportamento ainda não questionado. Isso não quer dizer que a pessoa não saiba o que está fazendo, ela sabe! O que ela ainda desconhece é motivo de fazê-lo. Este é o processo reflexivo: quando a pessoa volta sua consciência para o próprio ato estabelecido. Ela busca compreender – pela consciência reflexiva - os motivos que a levaram a ter tal comportamento. Alcançando sua compreensão, a pessoa cria a possibilidade para (re) construir sua essência. Contudo, a própria compreensão não é sinônimo de mudança, uma vez que a pessoa deve transformar o conhecimento adquirido em ato, ou seja: em escolha. É a partir da escolha que a pessoa constrói sua essência. E quando me refiro aqui à escolha, não se trata de uma escolha ao acaso, mas sim uma escolha responsável: a pessoa através da consciência reflexiva avalia e julga qual será a melhor escolha naquele momento. Lembrando que uma escolha efetuada não define sua essência, pois a qualquer momento a pessoa poderá mudar sua avaliação e fazer uma nova escolha. Portanto, é a própria pessoa quem escolhe seus fins e não uma suposta essência previamente elaborada que determinaria sua conduta. Sendo assim, o que você está esperando? O que você escolhe? Ser o agente da própria existência ou acreditar que é um objeto? Pense e faça sua escolha...

            

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

 Onde você está?

            Desde o momento que somos lançados ao mundo, passamos a conviver com o efêmero; com aquilo que nos escapa; que foge sem percebemos, e que de certa maneira delimita nossa existência. Refiro-me aqui ao tempo. Tempo que é expresso em: passado, presente e futuro. O primeiro servindo como registro histórico das nossas vivências, como se fosse uma espécie de museu mental no qual visitamos a qualquer momento para recordarmos situações ou mesmo pessoas que fizeram parte da nossa vida. O segundo praticamente esvai-se sem que percebamos sua real presença. Quando nos damos conta, ele já partiu, deixou de ser, e que talvez por conta disso sentimo-nos vulneráveis para de fato vivenciá-lo. Quanto ao terceiro e último, este nos convida para viajarmos até o mundo das nossas aspirações e desejos, ou seja, daquilo que almejamos conquistar no porvir. Este como um lugar tão desejado por muitos e ao mesmo tempo tão temido também, uma vez que não sabemos se vamos ou não conseguir alcançar nossas metas no futuro, não é mesmo?
            Bem, não quero aqui discorrer acerca do tempo ou mesmo propor um compêndio de como deveríamos lidar com ele, até porque cada pessoa tem uma maneira particular nessa relação. Diante disso, convido você para pensar: você costuma viver aonde? No passado? No presente? No futuro? Já havia pensado a respeito? Não? Não sei se você concorda comigo, mas você sempre está no momento presente. Exatamente! Você está sempre no aqui-e agora. Por exemplo: quando você relembra de fatos ou de pessoas do passado, você está trazendo tais lembranças no aqui-e-agora. Lembranças que são representadas por imagens, sons e, principalmente, sentimentos. Da mesma maneira quando você vislumbra o futuro, desejos e expectativas são criados por você também no presente. Ou seja, o único momento que existe na sua vida de maneira concreta é o momento presente. A questão talvez seja a dificuldade de permanecer nele.
            Mas por que escolhi falar do momento presente? Um momento que escapa tão facilmente da nossa retina e, talvez, por isso, deixamos de percebê-lo como o único momento que podemos fazer alguma coisa, transformar uma dada realidade. Minha escolha por versar sobre este momento não se deve exclusivamente a chance que temos para fazer algo nele, mas, principalmente, pela possibilidade de estarmos cônscios do como estamos atuando enquanto estamos nele. Como se tivéssemos a possibilidade de vivenciar uma situação pela primeira vez, tal qual a criança faz quando está descobrindo o mundo. Ela fica imersa na sua descoberta, cada detalhe parece não escapar-lhe aos seus sentidos.
No entanto, essa aventura presencial não é uma tarefa tão fácil para um adulto. Afinal de contas, são tantos pensamentos que passam pela cabeça, que fica difícil vivenciar uma situação de maneira plena, intensa. A pessoa até sabe que está fazendo algo, mas escapa à sua percepção o como está fazendo. Como se ela estivesse ligada numa espécie de piloto automático existencial, no qual deixando de perceber-se nas suas atitudes, deixa, ao mesmo tempo, de conhecer-se a si própria, ou seja, o como realiza suas escolhas. Perdendo o contato consigo mesma, acaba condenando o momento presente à mesma sina.
            Estar no momento presente é um instante mágico e ao mesmo tempo revelador, uma vez que ele poderá propiciar a chance da pessoa perceber-se a si mesma, o como ela está atuando. Ao mesmo tempo em que a mesma estará ampliando sua consciência e quem sabe percebendo que ela não está, de fato, no aqui-e-agora. O que de certa forma não bom ou ruim, mas sim uma compreensão da própria não-presença. Não-presença que afasta uma melhor compreensão ao próprio respeito e que também retira a responsabilidade dela estar realmente aonde ela deve estar. Se pessoa não se responsabiliza pela sua presença, ela não precisa fazer nada; não precisa correr riscos; não há necessidade em arriscar-se em um novo modo-de-ser. Quem sabe ela então prefira viver no passado, onde as condições reais para efetuar uma mudança já se encontram consumadas ou, também, ela pode tentar imaginar um futuro no qual a esperança pode funcionar como um antídoto para os males do presente. De qualquer maneira, é a própria pessoa quem escolhe o momento que deseja viver. E mesmo assim, ela ainda pode pensar até que ponto o seu próprio passado ou futuro idealizado não estariam atrapalhando no seu momento presente.
            Então... E você? Qual é a sua escolha? Você está aonde?


           

            

terça-feira, 4 de junho de 2013


Conectado ou desconectado?

            Penso que o momento que estamos vivenciando em relação ao desenvolvimento tecnológico, em particular, das novas mídias, seja estupendo e, ao mesmo tempo, inovador. A humanidade contemporânea vem criando ferramentas que tem facilitado o nosso cotidiano e por que não dizer também, afetando nas nossas relações interpessoais. Dentre as diversas ferramentas da informação desenvolvidas, sem sombra de dúvida, a internet é soberana. Ela de fato trouxe uma nova perspectiva na maneira como obtemos informação. A informação antes restrita, agora ganha uma notoriedade globalizada. Sem falar na célere como ela também viaja. O ser humano assim passou a estabelecer uma nova maneira de se relacionar, ou seja, passou a ficar conectado numa rede. O ciberespaço tornou-se não só um local para obter informação, mas também uma espécie de point de “encontro” entre as pessoas. A internet assim transformou a humanidade ou seria a humanidade que vem transformando a maneira como utiliza a internet?
            Antes que você pense que sou contra internet e que deveríamos voltar ao tempo das cavernas - que não é o caso -, digo-lhe que a internet é uma ferramenta maravilhosa e de extrema importância. Meu convite, caro leitor, é para refletirmos juntos acerca da maneira como ela vem sendo utilizada pela humanidade, ou melhor, dizendo, por algumas pessoas. Você já pensou no seu motivo de utilizá-la? Creio que seja importante sabermos o motivo de fazer alguma coisa e não simplesmente “fazer por fazer” como muitos talvez pensem. Na realidade, são pessoas que estão ininterruptamente conectados à internet, mas desconectados de si mesmos. Elas sabem que estão na rede – como milhares estão -, mas desconhecem o próprio sentido de estarem conectadas. Quem sabe elas busquem por algo ou por alguém, mas talvez não saibam o que de fato estão procurando. Como se quisessem aplacar um vazio, uma solidão ou mesmo o medo de ficar sozinho (a).  A internet, nesse sentido, pode ser usada com como uma mídia de “encontro”. Por outro lado, pode também denunciar uma solidão ou mesmo uma fuga. Quando me refiro à fuga, faço menção à fuga de si mesmo, dos seus próprios pensamentos, das suas angústias e dos seus temores. Será que você utiliza a internet para não se sentir solitário? Para talvez fugir de si mesmo? Pensar a respeito, não quer dizer que você deixará de utilizá-la, mas sim, que você estará ampliando sua consciência na utilização de tal ferramenta E ser autoconsciente, é exercer sua liberdade, é não permitir-se diluir no “todo mundo”.
            Outro aspecto que gostaria de levantar aqui, é a vinculação equivocada que muitos fazem da internet com o adquirir conhecimento. A internet é uma mídia da informação e não do conhecimento como muitos acreditam. E informação, é totalmente diferente de conhecimento. O conhecimento é seletivo e reflexivo. A pessoa filtra o que deseja conhecer e busca pensar a respeito da sua escolha. A informação, por outro lado, é mais cumulativo. A pessoa nem precisa pensar a respeito do que está acessando. Como se ela (pessoa) estivesse apenas armazenando informações e mais informações, sem, no entanto, refletir acerca das mesmas. Você já pensou nisso? E você, seleciona o que deseja buscar na internet ou segue o fluxo do “acessar tudo”, “assistir tudo”?
É tanta informação que podemos naufragar ao invés de navegar. Nossa! Isso me lembrou o filósofo Mario Sergio Cortella, que no seu livro Não nascemos prontos! : Provocações filosóficas, aborda numa de suas pensatas o risco que corremos na maneira como utilizamos essa magnífica ferramenta. Ele chega a utilizar a famosa obra literária de Lewis Carol, Alice no país das maravilhas, para fazer uma alusão ao risco do naufrágio que podemos sofrer. Trata-se de dois personagens que expressam os tempos de hoje: um coelho – como nós – sempre com pressa, correndo e olhando o relógio a todo o momento e lamuriando: “estou atrasado, estou atrasado”; o outro, é um insólito gato que, numa árvore, tem o corpo que aparece e desaparece, em certos momentos aparece à cauda, e em outros o seu sorriso. O diálogo entre Alice e o gato é o ponto alto e que foi bem adaptado pelo filósofo: Alice, perdida, pergunta: “Para onde vai esta estrada?”. O gato responde: “Para onde você quer ir?” Ela fala: “Não sei; estou perdida”. O gato não pensa duas vezes e diz: “Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve...”
Interessante esse diálogo, não lhe parece? Pois é... Podemos incorrer nessa armadilha quando sentamos diante da tela do computador e navegamos na internet, ou seja, de não termos compreensão daquilo que desejamos acessar e, por conseguinte, acabamos acessando “tudo” que aparece.  No final das contas, acessamos um “nada” que não queríamos. Pense nisso... E antes de usufruir dessa maravilhosa ferramenta tecnológica, conecte-se consigo mesmo, procure perceber-se na sua escolha, pois, do contrário, você corre o risco de estar conectado (internet) e desconectado (de si mesmo). O resultado? Talvez uma sensação de vazio que, no dia seguinte e no próximo, você queira preencher a cada vez que estiver sentado de frente para a tela do computador. Portanto, navegue na internet, mas saiba pelo que você procura. Acredito que pela autoconsciência você saberá aonde quer chegar, não achas? Um forte abraço...  

terça-feira, 9 de abril de 2013


Mudar ou não mudar, eis a questão

            Gostaria de falar acerca de um tema que para algumas pessoas pode ser considerado como um grande obstáculo na vida: a mudança. Quem já não sentiu aquele friozinho na barriga só em pensar na possibilidade de ter que fazer uma mudança na própria vida. Não me refiro aqui exclusivamente à mudança de emprego ou de um relacionamento amoroso, mas, principalmente, a proposta de mudança psicológica, do próprio EU. Mudança esta desejada por muitos e ao mesmo tempo temida também, uma vez que ela requer responsabilidade e engajamento por parte da pessoa. Cabe a ela, a responsabilidade por tal escolha, assim como também sua ação para alcançar seu desejado projeto. A questão, é que a busca pela mudança pessoal não se faz sem angústia, pois a pessoa terá que abandonar-se para recriar-se a si mesma. E talvez aí haja a possibilidade de um impedimento: abrir mão de um comportamento já conhecido, habitual, para (re) construir-se numa nova pessoa. Como se a mesma fosse uma espécie de fênix renascida das próprias cinzas.
            A mudança traz o desafio do novo, do desconhecido, o que muitas vezes pode fazer com que a pessoa se paralise. O medo da perda do próprio EU torna-se uma ameaça. Tem-se uma ideia equivocada no transcurso da mudança que o EU se perderá. Na realidade o EU não se perde, mas ocorre uma ondulação durante esse processo – fator que faz parte da mudança. Em alguns aspectos a pessoa pode se desenvolver melhor do que em outros, o que não impede pela busca de um melhor aprimoramento pessoal. A suposta perda do EU não ocorre, senão seu próprio desenvolvimento.
            Se por um lado inexiste o medo da perda EU, por outro temos o medo do risco. Risco que nos coloca diante de uma abertura e que muitas vezes não queremos vivenciá-lo. É mais fácil ter uma atitude acomodada ou mesmo acreditar que já nascemos com uma essência pré-determinada, pois, assim, não há o que mudar e muito menos conviver com uma possível derrocada emocional. Torna-se então mais fácil a acomodação, permanecer onde está para talvez evitar um possível sofrimento no porvir. Contudo, acabamos criando dessa maneira um paradoxo: controlar o incontrolável. A tentativa de controle já coloca em xeque a própria existência, uma vez que exige um esforço tremendo da própria pessoa para evitar qualquer contato com o risco, ao mesmo tempo em que ela abdica de experimentar-se a si mesma e constatar pela própria vivência suas reais possibilidades. Em suma, tal tentativa não a livra de um possível sofrimento indesejado, mas, ao contrário, faz emergir noutro sofrimento, qual seja, a culpa. Culpa pelo medo de não arriscar.   
            Então, realizo uma mudança pessoal ou não, eis a questão? Qual seria o receio? Olhar para as possíveis perdas pode ser uma forma de tirar o foco dos possíveis ganhos. O ser humano não nasce pronto ou com uma essência pré-determinada. Somos seres humanos não porque nascemos humanos, mas porque reunimos condições de transformação. Não apenas transformação onde vivemos, mas, inclusive, como vivemos, quem somos. Somente pela atitude que o ser humano pode conseguir um maior e melhor autoconhecimento sobre si mesmo. Autoconhecimento que só podemos adquirir com o risco da mudança, com a vivência de novas situações. Sendo assim, se você está com medo ou dúvida se vale à pena criar uma mudança pessoal ou não, pense no motivo que lhe impede. Talvez você possa se surpreender com a coleção de ideias ao próprio respeito e não por vivências concretas realizadas. São essas vivencias que podem lhe dar um melhor parâmetro ao próprio respeito, ou seja, até onde posso ir; se consigo mesmo ou não. Lembrando também que tal parâmetro não define a pessoa, pois somente a própria pessoa quem define seus fins, suas metas.
Para finalizar, gostaria de citar aqui o poeta Guimarães Rosa que dizia: “viver é perigoso”. Entretanto, pelo meu modo de ver, mais perigoso ainda é deixar de viver; deixar de arriscar; abrir mão de si mesmo; abrir mão da própria mudança, uma vez que evoluir tem relação direta com mudanças que criamos na própria vida e não pela manutenção de idealizações que acreditamos ter ao nosso próprio respeito. Boas mudanças! Um grande abraço...









sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O momento da alta

         O findar da terapia geralmente representa uma conclusão de metas estabelecidas. O cliente ao longo do processo terapêutico construiu mudanças significativas, aprendeu a lidar melhor com situações antes temidas e, por conta disso, um sentimento de bem-estar inunda seu ser. Torna-se assim natural e ao mesmo tempo temido também o desejo por experimentar suas novas habilidades fora do “setting” terapêutico.
 Quem define o momento da alta? E sob qual critério? Isso nos remete aos modelos de terapia. Temos o modelo médico no qual o profissional define o melhor momento para conceder à alta e o modelo psicológico que acredita na capacidade do próprio cliente para definir quando interromper sua terapia. Na primeira situação, o cliente poderá se sentir abandonado ou rejeitado pelo terapeuta. Por outro lado, um sentimento de alívio pode acometê-lo, uma vez que a responsabilidade pela interrupção parte do profissional. Já no segundo caso, é o cliente quem define o momento da interrupção - a responsabilidade agora está nas mãos do cliente. Ele decide quando interromper seu tratamento. Decisão que, no entanto, não o livra da dúvida ou da incerteza, senão para o risco, pois, estará sozinho enfrentando seus problemas.
A terapia vivencial – psicologia existencial baseada na filosofia de Jean-Paul Sartre – estabelece o cliente como à pessoa mais qualificada para decidir o momento da alta. Erthal versa a respeito: “Na terapia vivencial, a alta é dada pelo próprio cliente que é considerado a pessoa mais adequada para se avaliar, atingindo o crescimento” (ERTHAL, p.147, 2004). Se nessa abordagem existencial enfatizamos a autonomia e a responsabilidade do cliente, estaríamos nos contradizendo se determinássemos o momento da interrupção do tratamento. Cabe assim ao cliente escolher o momento para interrompê-la.
Mas o cliente não pode equivocar-se levantando prematuramente o término do tratamento? Claro que pode! Daí a importância duma discussão franca com o terapeuta para auxiliá-lo na sua decisão. Visto que, existe uma diferença entre o cliente que levanta o assunto da alta para o cliente que já definiu o momento de parar. A questão é que alguns términos tornam-se prematuros. Comumente, clientes alegam não ter mais nada para falar ou não percebem a ligação do trabalho realizado com os problemas vivenciados. Alguns indícios servem para sinalizar um desejo para interromper o tratamento: atrasos e faltas constantes, baixa produção, etc. Entretanto, tais comportamentos podem representar uma forma do cliente chamar a atenção do terapeuta. O cliente pode sentir-se pouco apoiado, triste com suas descobertas, ou mesmo tentando evitar entrar em contato com a sua ansiedade. Até mesmo a situação financeira pode ser usada como desculpa para evitar falar sobre seu descontentamento com a terapia.
Como mencionamos anteriormente, é de suma importância uma discussão no sentido de esclarecimento para o cliente acerca da sua decisão, pois, talvez, haja alguns aspectos nebulosos que necessitem de uma melhor compreensão. Alcançar tal compreensão pode dissipar dúvidas e fortalecer sua decisão. No entanto, alguns clientes, por exemplo, ficam na dúvida em interromper seu tratamento pelo medo de perder o contato com o terapeuta. Relutam interromper a terapia, pois, desta maneira, ainda conseguem manter o vínculo. Outros levantam a questão da alta precipitadamente por repetição de comportamentos anteriores – abandonaram atividades anteriores por medo do fracasso, ou por causa da ideia de que não conseguirão alcançar seus objetivos. E também clientes que podem passar por dificuldades financeiras – questão comum nos dias de hoje – a ponto de ameaçar a continuidade do tratamento. Em todos os exemplos citados, é importante que o terapeuta, com sensibilidade, possa junto com o cliente chegar numa melhor compreensão para ajudá-lo na sua decisão. Deixar o cliente bem à vontade no sentido dele desejar manter contato com o terapeuta mesmo após a alta e que ficaria feliz por acompanhar seu desenvolvimento (Lembrando que caso ele precise retornar à terapia não se trata de retrocesso, mas um recomeço); levar o cliente à percepção do comportamento sabotador, e que a interrupção da terapia seria mais uma fuga de si mesmo, e que a questão financeira pode ser revista junto com o cliente – posição particular de cada terapeuta – para não atrapalhar no seu desenvolvimento. Em todo caso, sempre o cliente escolhe o momento da alta. Cabe ao terapeuta, respeitar e acolher sua decisão. Atitudes estas que reafirmam à máxima do existencialismo sartreano, qual seja, a LIBERDADE.       


Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Treinamento em Psicoterapia Vivencial; Livro Pleno, São Paulo, 2004.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Culpa existencial

            Se “o ser humano está condenado à liberdade” como proclamado pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre (1943), então ele está totalmente livre para criar e estabelecer o seu próprio projeto (ver texto: Auto-imagem ou projeto original). Este, construído através de escolhas que são oriundas da consciência reflexiva. Consciência esta que pode avaliar e criar um critério de valores, uma vez que cada pessoa escolhe o que é mais importante para si mesma. Entretanto, cada escolha realizada não tem qualquer garantia de sucesso, pois não há como saber o resultado. Este é o grande risco existencial – arriscar-se a cada instante; vivenciar a incerteza na busca por uma “certeza”. A angústia nesse momento torna-se eminente e a pessoa pode escolher não querer escolher (o que não deixa de ser uma escolha). Mas qual seria o intuito dessa pessoa adotando tal postura?
A pessoa quando escolhe não querer escolher, estaria abrindo mão da sua liberdade e, ao mesmo tempo, tentando evitar sentir a angústia. Afinal de contas, liberdade é ação – característica de toda escolha – e, também, abertura diante do nada, que é geradora de angústia. Sendo assim, a pessoa busca minimizar o contato com os fatos para evitar a responsabilidade da escolha e, por conseguinte, o sentimento de angústia. E Erthal comenta a respeito: “[...] A forma de reduzir a ansiedade resultante é diminuindo suas opções, ou seja, evitando significativamente sua interação com os acontecimentos. Na luta contra o que pode vir a destruir o seu ser, o indivíduo acaba deixando de ser completamente [...]” (ERTHAL, p.51, 1989). Tenta-se de todo modo fugir de si mesmo, como se a pessoa quisesse se transformar em um objeto. Porém, tal estratégia acaba conduzindo-a para um abissal sentimento de culpa e fracasso. Tem-se a falsa ideia de que a pessoa nasceu pronta e determinada, como se de fato ela fosse um objeto. Dessa forma, ela deixa de perceber o como tem usado sua liberdade – diminuição das opções, proteção do seu ser e fuga. Suas escolhas em vez de potencializar suas possibilidades existenciais, acabam limitando sua liberdade. Também podemos atestar tal tentativa de limitação quando a pessoa atribui ao destino, a Deus ou ao acaso os resultados não alcançados. Dir-se-á então que ela se tornou o próprio algoz da sua existência, ao mesmo tempo em que desconhece sua responsabilidade existencial.
            A culpa existencial decorre do arrependimento, da lamúria, das possibilidades negadas pela própria pessoa. Feijoo versa acerca: “A culpa existencial – A pre-sença mostra no seu discurso a culpa existencial de várias maneiras. Aparece, por exemplo, como lamentação das possibilidades que não foram escolhidas, [...]. A queixa fica em torno daquilo do qual outrora se abriu mão” (FEIJOO, p.121, 2000). Temos exemplos como: “Ah! Poderia ter feito isso...” ou “Se pudesse, eu voltava no tempo...”, são discursos em que a pessoa acaba ficando enraizada num passado, deixando, assim, de perceber o momento presente e muito menos vislumbrar a possibilidade dum futuro. Presa ao passado, não consegue perceber-se no aqui-e-agora, repetindo assim o mesmo comportamento vivido anteriormente.
            A perspectiva existencial visa à liberdade e à responsabilidade da pessoa. Ficar presa ao passado pode ser uma maneira de fugir do presente – negação da liberdade -, que pode ser uma maneira de evitar entrar em contato com a própria liberdade. Lembrando que a ação é uma condição sine qua non da liberdade. Liberdade que está atrelada à responsabilidade, pois apenas a própria pessoa quem pode realizar suas escolhas e mais ninguém. Daí não haver álibis ou destino em cada escolha efetuada. O que existe é apenas: “EU escolho...” e não o “Todo mundo escolhe... ou “o destino fez essa escolha por mim”. Por conta disso, o existencialismo é visto de maneira equivocada como uma postura filosófica negativa, uma vez que a pessoa é a única responsável pela sua existência. Isso remete à ideia de solidão e abandono, que na realidade é uma quimera, pois estamos com outrem e somos reconhecidos a partir da relação com eles. No entanto, cada escolha é pessoal, particular. Assim, nada mais otimista que filosofia existencial, pois ela coloca nas mãos de quem é de direito a responsabilidade pela construção da própria existência.

Referências Bibliográficas:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.
FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. A escuta e a fala em psicoterapia: uma proposta fenomenológico-existencial – São Paulo: Vetor, 2000.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada – Ensaio de ontologia fenomenológica; tradução de Paulo Perdigão. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Temor da morte ou fuga da vida?

         A morte é inexorável para todo ser humano, não há como escaparmos a ela. No entanto, algumas pessoas “sabendo” de tal sina, buscam por sua imortalidade. A constituição de uma família, por intermédio dos filhos; a ideia de vida após a morte e a publicação de livros são alguns exemplos para sentirmos uma continuidade. Ao mesmo tempo em que tais atitudes demonstram uma inabilidade de reconhecermos que, de fato, nossa existência tem um limite.
            A presença da morte pode ser vista como ameaça à existência, daí muitas vezes o ser humano não desejar falar sobre ela. Tem-se apenas a vontade de evitá-la. Entretanto, a morte se faz presente mesmo que não consigamos percebê-la claramente. Quando concluímos uma meta estabelecida, por exemplo, ela de certa maneira deixou de existir, findou, ou mesmo quando voltamos para casa depois de um dia de trabalho, este também foi finalizado, concluído, e nem por isso deixamos de existir.
            Podemos ainda atestar a presença da morte quando uma pessoa próxima a nós parte. Deixamos de ter o contato com essa pessoa e, ao mesmo tempo, reconhecemos que um dia nosso fim chegará, ou seja, se acontece com o outro, poderá ocorrer comigo. A solidão e um fim que se anuncia para a pessoa são o grande temor e tremor.
            Será a morte somente uma extinção biológica? Na qual nossas funções vitais deixam de funcionar: nutrição, regulação, atividade etc. Como se fôssemos um objeto que foi extinto? Sem dúvida que o corpo delimita nosso ser no mundo, nossa presença em relação a outrem. Assim como também recebemos diversos estímulos do meio, o que favorece uma relação particular com o próprio mundo – interno e externo. Entretanto, tal relação pode ser ameaçada quando a pessoa escolhe morrer psicologicamente. Como se fosse uma forma de suicídio psicológico, só que em vida.
            A “morte psicológica” (Erthal) caracteriza que a morte não se trata de um fato exclusivamente biológico. Na realidade, ela denuncia o término de uma vida considerada saudável sem que tenha o fim da existência física, corpórea. A pessoa escolhe não mais existir – criar uma identidade e autonomia – para aguardar a morte como “solução” para sua problemática. O que acaba sendo uma contradição pelo temor da própria morte. Erthal de forma sabia propõe uma definição para tal morte: “Na morte psíquica, o outro passa a ser o guardião: ser esquecido é tornar-se objeto da atitude de um outro[...]. Enfim, a morte psicológica não deixa de ser o caminho para o fim da existência do sujeito, já que abandona todos os seus projetos de vida em prol de uma forma vegetativa de existir”(ERTHAL, p.145,1989). Nega-se então à existência na tentativa de evitar a angústia da própria vida, uma vez que inevitavelmente temos que passar por perdas (mortes) durante a vida.
            É a filosofia existencial que traz uma nova forma de se relacionar com a morte. Condição que faz parte da existência humana, não no sentido de uma espera pela mesma, mas reconhecendo que temos um limite e que precisamos valorizar cada momento da vida. A conscientização da morte faz com que a pessoa reflita em relação à sua qualidade de vida e não na quantidade que supostamente ainda tem. Até por que não existe apenas a morte por velhice. Se assim fosse, teríamos como prever quando morreríamos, o que também não impediria nossa sina. Na realidade a morte para o existencialismo, de maneira geral, é que dá o significado à própria vida. Como o filósofo alemão Nietzsche – considerado existencialista por muitos - dizia próximo dessas palavras, que devemos dizer sim a cada instante da vida.
            A psicologia existencial, ao acompanhar clientes com questões relacionadas à morte, tem uma meta básica: auxiliá-los a refletir suas qualidades de vida. Como o cliente vivencia suas angústias e seus objetos de medo, que na realidade representam uma espécie de morte, uma vez que toda morte representa uma mudança ou transformação e que, talvez, o cliente procure evitar. Conhecer-se a si mesmo, é assumir seu medo de maneira responsável e que possíveis perdas fazem parte da sua existência, o que não quer dizer evitá-las, mas saber que elas existem para serem vivenciadas e superadas. O trabalho junto ao cliente no aqui-e-agora facilita na compreensão do lidar com a morte e, ao mesmo tempo, faz com que ele tenha maior conscientização da maneira como está vivendo. Alcançando tal compreensão, acreditamos que ele possa conviver com a morte como fazendo parte da sua existência. Reintegrando-a vida, a morte deixa de ser uma fuga da própria existência, passando a ser parte de uma vida mais plena.

Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

terça-feira, 11 de setembro de 2012


Consciência e transcendência do ego


            O ser humano é ontologicamente um ser de relação. Relação consigo mesmo ou com mundo no qual ele vive. Esta relação tem como característica a transcendência, uma vez que a existência não está pronta. Ele, ser humano, precisa a cada momento construir-se, e nesta construção somente ele pode fazê-lo.
            A consciência é proposta como um vazio que segue em direção ao seu objeto de maneira intencional, com o intuito de preenchimento. Tal atitude estabelece à relação primordial da consciência com o mundo. Visto que, não há consciência sem um mundo para ser intencionado, assim como também o mundo só pode ser desvelado por uma consciência – princípio da intencionalidade de Husserl. Portanto, a consciência é um ato de captação do objeto que pode acontecer por: percepção, imaginação, emoção, etc. O que configura a consciência como consciência do mundo. Sartre, citado por Erthal comenta a respeito: “O ego não está formalmente nem materialmente na consciência. Está no mundo – é um ser-do-mundo, como o Ego do outro. [...] É a consciência que torna possível a unidade e personalidade do meu eu. [...] A existência da consciência é um absoluto, porque a consciência é consciência de si mesma. [...] O objeto está frente a ela com sua opacidade característica, mas ela, ela é pura e simplesmente consciente de ser consciente desse objeto, tal a lei de sua existência. Mas esta consciência de consciência não é posicional, isto é, que a consciência não é ela mesma sem objeto. Seu objeto está por natureza fora dela. Não se conhece a si mesmo senão como interioridade absoluta – é a consciência irreflexiva. Não tem lugar para um eu nessa consciência” (ERTHAL, p.36, 1989). Temos então a consciência irreflexiva, consciência de primeiro grau, que se esgota na captação do objeto e a consciência reflexiva ou consciência de segundo grau, que é a consciência de ser consciente de algo.
            A consciência irreflexiva é perceptiva, pois a consciência visa um objeto ou uma ação, excluindo-se a si mesmo. Ela e o objeto de que é consciência tornam-se uma unidade, isto é, existe uma identificação com o objeto sem que ela se perca como objeto. Tal identificação não necessita do conteúdo psíquico do eu, uma vez que o psíquico somente pode ser captado por uma ação reflexiva.
            A consciência de segundo grau ou reflexiva é a consciência de ser consciente de algo. O Eu, neste caso, é consciente do seu objeto de consciência. Daí chamá-la de consciência reflexiva, pois ela reúne condições para avaliar, emitir julgamento sobre alguma atuação. Como podemos atestar nas palavras de Sartre: “[...] no ato de reflexão emito juízos sobre a consciência refletida, envergonho-me ou orgulho-me dela, aceito-a ou a recuso, etc. A consciência imediata de perceber não me permite julgar, querer, envergonhar-me. Ela não conhece minha percepção, não a posiciona: tudo que há de intenção na minha consciência atual acha-se voltado para fora, para o mundo” (SARTRE, p.24, 2001)
            É importante esclarecermos que o ato irreflexivo tem supremacia em relação ao reflexivo. Toda consciência primeiramente é consciência irreflexiva – a consciência sempre existirá mesmo que não haja reflexão; a consciência irreflexiva é independente dum ato reflexivo. O Eu apenas aparece relacionado a um objeto de uma intenção irreflexiva, bem como de um ato reflexivo.
            A terapia existencial tem como proposta a ampliação da autoconsciência para aumentar a possibilidade de escolha. Quanto mais o indivíduo tiver consciência de ser consciente da própria existência, ele passa a se responsabilizar mais por suas escolhas; assume a liberdade que decerto ele é; reconhece que a existência é um contínuo movimento de construção e reconstrução; que ela, existência, tem um tempo indeterminado para ser vivenciado e que o indivíduo precisa correr os riscos de vivê-la. À medida que ele se torna mais autoconsciente poderá viver mais integrado consigo mesmo; percebe seus limites sem deixar de buscar um melhor aprimoramento dentro de possibilidades reais. O Eu, assim, deixa de ser um atributo ou objeto e passa a ser um processo, um agente transformador da própria existência. Esse é o princípio da transcendência do ego do qual nos referimos.


Referências bibliográficas:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada – Ensaio de ontologia fenomenológica; tradução de Paulo Perdigão – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.


        

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O sonho na visão existencial

            Os sonhos sempre despertaram grande interesse humano. Por que sonhamos? E qual seria sua função? São perguntas que suscitaram estudos de psicólogos, psicanalistas e também dos psicofisiólogos. Freud, o pai da psicanálise, por exemplo, diz que o sonho é a porta de entrada para o inconsciente. Na área da fisiologia, pesquisas revelaram que todos sonham, porém não são todos que conseguem se recordar dos mesmos; que os adultos sonham em média de 5 a 7 séries oníricas, ou seja, a cada 90 minutos um sonho; pessoas idosas não sonham tanto e pessoas que não conseguem se lembrar de seus sonhos são pessoas mais controladas, defensivas frente às situações consideradas por elas como problemáticas. Sonhar então parece ser primordial para o funcionamento do nosso organismo.
            E qual é a importância do sonho na abordagem existencial? Diferentemente da proposta freudiana que considera o sonho como possibilidade para desvelar forças inconscientes que dominam a pessoa, o existencialismo vê como um correlato do mundo desperto do próprio sonhador, uma vez que o sonho e a vida desperta fazem parte da mesma pessoa. Durante o sono as funções vitais permanecem e o sonho se torna uma espécie de continuidade dessa vida desperta num outro mundo, o mundo imaginário. Erthal comenta: “O estar-no-mundo caracteriza a relação da consciência que sonha, pois trata-se de um mundo imaginário no qual a consciência não pode perceber; não se sai da atitude imageante enquanto se sonha. Todo sonho é imagem; é um produto da consciência” (Erthal, p.127, 1989). O sonho desta feita pode trazer uma mensagem existencial para o próprio sonhador, o como ele está e sua posição no mundo.
            O sonho para o existencialismo é a trajetória para uma integração. Integração no sentido de que ele contém partes da nossa personalidade. Consideramos que existe um paralelo, um princípio isomórfico de identidade – conceito oriundo da matemática -, entre o sonho e o sonhador. Os diversos elementos oníricos podem fornecer uma gama de explicações ao que ocorre no aqui-e-agora em seu mundo desperto, é por intermédio da consciência reflexiva que a pessoa pode alcançar tais explicações. Ao contrário de interpretar para o cliente o significado, mantemos o sonho como revelado pelo sonhador, cabendo a ele perceber o seu significado particular, próprio. Se o sonho traz possibilidades existenciais da pessoa, cabe ao terapeuta incentivar o cliente a refletir numa relação entre o sonhar e a vida desperta.
            Quando favorecemos ao cliente relatar seu sonho, ele tem a possibilidade de encontrar seu significado – enquanto desperto – do que foi vivenciado no sonho. O foco principal é o esclarecimento do real ser-no-mundo do sonhador que não existe durante o sonho. Inicialmente ele relata o sonho para depois descrever a reação diante dos fenômenos que lhe aparecem. Qual o sentimento presente? Qual a mensagem existencial está presente nesse estado anímico? Vejamos um pequeno exemplo fictício do trabalho com o sonho no existencialismo. Nosso intuito com tal apresentação é para melhor esclarecer ao leitor como este trabalho pode ser desenvolvido. Lembrando que, para alcançarmos um melhor resultado, é fundamental a participação do cliente. Vamos ao exemplo: Estava me olhando. Não parecia comigo, mas sabia que era eu mesma. Tinha que escolher entre dois caminhos para seguir. Entretanto, estava com medo. Um medo que me paralisava, não conseguia escolher de forma alguma. Um relógio aparece mostrando o tempo que me resta para escolher, como se fosse meu fim. Acordo assustada.
            Primeiramente podemos perguntar ao cliente como ele se sente agora relatando seu sonho (Talvez haja uma relação do sentimento de medo no sonho com seu mundo desperto. Nesse caso, o medo será trabalho com o cliente). Em seguida incentivamos que ele vivencie seu sonho no presente, em partes: ele mesmo, os dois caminhos, o medo, o relógio e o tempo (A escolha cabe ao cliente para verificar com qual personagem inicialmente mais se identifica). A vivência do cliente em cada aspecto do sonho poderá revelar seu ser-no-mundo desperto, como se ele estivesse representando um papel, um personagem do próprio sonho para tirar daí sua mensagem existencial. Pela percepção e compreensão do sonho no aqui-e-agora é que o cliente poderá alcançar sua integração. Esse se configura o princípio isomórfico de identidade com o qual realizamos nosso trabalho.

Referência Bibliográfica:

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.